segunda-feira, 27 de julho de 2026
Linha Recife–João Pessoa pode ser o início de um novo ciclo de integração ferroviária no Nordeste
15/10/2025 10:02
Redação ON Reprodução

O eixo Recife–João Pessoa pode se tornar o ponto de partida de uma nova era para o transporte de passageiros no Nordeste. A informação foi confirmada por Jorge Bastos, presidente da Infra S.A., empresa pública vinculada ao Ministério dos Transportes, durante o evento Logística no Brasil, promovido pelo jornal Valor Econômico em parceria com o próprio ministério. Segundo Bastos, o governo federal encomendou à estatal os primeiros estudos de viabilidade para criar uma linha ferroviária ligando as duas capitais mais próximas do país — um trajeto de pouco mais de 120 quilômetros.

“O primeiro trecho que o Ministério dos Transportes nos deu para estudar é exatamente uma ligação entre as capitais que têm a menor distância entre elas”, afirmou Bastos. “Mais tarde, tendo viabilidade, a linha pode se estender até Maceió, Natal e assim por diante”, completou.

O projeto integra o Plano Nacional de Logística 2050 (PNL 2050), que está sendo elaborado pelo Ministério dos Transportes com apoio técnico da Infra S.A. O plano — uma espécie de mapa estratégico para o futuro da mobilidade brasileira — começou a ser desenvolvido em 2024, por determinação presidencial, e deve ter sua primeira versão concluída ainda em 2025.

A ideia é que o PNL 2050 sirva como guia de longo prazo para o país, indicando as obras e investimentos prioritários para as próximas décadas. No caso do Nordeste, o foco é reduzir gargalos históricos e impulsionar o crescimento econômico de uma região que, embora abrigue 27% da população brasileira, responde por apenas 14% do PIB nacional.

Flávio Ataliba, economista da Fundação Getulio Vargas (FGV), lembrou que o Nordeste cresceu acima da média nacional nos últimos dez anos, mas ainda precisa de investimentos robustos para equilibrar sua participação econômica. “É preciso acelerar o crescimento do Nordeste. Infraestrutura é fundamental para isso”, defendeu.

O secretário-executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, destacou que o governo federal está apostando alto na expansão da malha ferroviária como motor de desenvolvimento. Segundo ele, cerca de R$ 60 bilhões serão aplicados em novos trechos, com destaque para o corredor logístico que conectará o Centro-Oeste ao Porto do Sul, em Ilhéus (BA), por meio da integração da Fico e da Fiol — um projeto que deve ter edital lançado já no primeiro semestre de 2026.

Para o Nordeste, contudo, a perspectiva mais simbólica é justamente a retomada do transporte de passageiros. Se confirmada, a linha Recife–João Pessoa será um marco: há décadas a região não conta com um sistema ferroviário moderno e interligado entre suas capitais. Além de fortalecer a integração regional, o projeto pode abrir caminho para a retomada de rotas turísticas e pendulares, conectando áreas metropolitanas densamente povoadas e economicamente ativas.

A expectativa é que, a partir dessa primeira ligação, outros trechos possam ser planejados — estendendo-se até Natal, Maceió e futuramente outras capitais nordestinas. A proposta vai ao encontro da estratégia do governo de diversificar os modais de transporte, reduzir as emissões de carbono e preparar o país para um novo ciclo de mobilidade sustentável.

Na prática, o traçado Recife–João Pessoa pode se tornar o laboratório do futuro da logística de passageiros no Brasil: um projeto de curto percurso, alta demanda e simbolismo regional. Se der certo, pode inaugurar um modelo de integração metropolitana que o Nordeste espera há décadas — e que finalmente começa a sair do papel.

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