Às vésperas da aguardada reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, abriu o jogo sobre o que está em disputa. Falando a jornalistas antes de embarcar para a cúpula da Malásia, Rubio afirmou que “é benéfico para o Brasil ter os Estados Unidos como parceiro de escolha em vez da China”, sinalizando a tentativa da Casa Branca de reverter o avanço chinês sobre o comércio e os investimentos no país.
A fala do chanceler norte-americano revela um reposicionamento estratégico de Washington em relação a Brasília. Depois de meses de pressões, ameaças e distanciamento, o tom agora é de aproximação. Produtores e exportadores americanos pressionam o governo republicano diante do risco de perder acesso a insumos e commodities brasileiras, fundamentais para conter a inflação nos Estados Unidos.
“Rubio está cedendo à racionalidade econômica”, avaliam analistas. “Ele é uma das figuras mais ideológicas do governo Trump, marcado pelo discurso anticomunista e de dominação hemisférica. Ao adotar agora uma linguagem conciliadora, admite que precisa do Brasil.”
Enquanto isso, Lula mantém um discurso de cautela. Questionado na Malásia, o presidente disse que ainda não recebeu exigências dos Estados Unidos: “Não tem exigência deles e não tem exigência minha. Eles vão colocar os problemas na mesa e tentar encontrar uma solução. Pode ficar certo que vai ter uma solução.”
Trump, por sua vez, evitou antecipar o teor do encontro, mas confirmou a disposição de conversar “sobre questões bilaterais e de comércio”. O clima é de pragmatismo.
Nos bastidores, a leitura é que o “jogo virou”: o país que antes cobrava alinhamento automático agora procura o Brasil como interlocutor e fornecedor confiável. A tentativa americana de afastar o Brasil da órbita econômica chinesa é também um gesto de reconhecimento do novo peso estratégico de Brasília — uma potência agrícola, energética e industrial que passou a ditar o ritmo da balança comercial global.
Se o encontro entre Lula e Trump realmente acontecer, pode representar mais que uma aproximação diplomática: pode marcar uma reconfiguração de forças nas Américas.

