No linguajar direto e muito bem compreendido no Nordeste, João Campos bateu pino. A expressão resume com precisão o desfecho de uma crise que começou administrativa, mas rapidamente virou política e digital. Diante de uma reação pesada nas redes sociais, o prefeito do Recife percebeu que insistir na decisão seria comprar uma briga grande demais para quem construiu sua imagem justamente no ambiente virtual.
A polêmica teve início com a nomeação de um candidato que havia ficado na 62ª colocação em um concurso público, após uma reclassificação tardia para a condição de pessoa com deficiência. A medida deixou de fora o advogado paraibano Marko Venício dos Santos Batista, que era o único aprovado originalmente dentro das vagas destinadas a PCDs. O detalhe decisivo, e explosivo, foi o fato de o beneficiado ser filho de uma procuradora, o que alimentou a percepção de favorecimento.
A reação nas redes foi imediata e avassaladora. Para um gestor identificado como “prefeito da internet”, o termômetro foi claro: a decisão não apenas desgastava sua imagem, como ameaçava virar uma avalanche difícil de conter. A pressão extrapolou o debate técnico e ganhou contornos simbólicos, atingindo em cheio o discurso de modernidade, transparência e sensibilidade social que João Campos costuma defender.
Diante do estrago, veio o recuo. A prefeitura publicou nova portaria tornando sem efeito o edital que havia permitido a reclassificação três anos após o concurso. Com isso, voltou a valer a homologação de 2023, restabelecendo a ordem original e garantindo a nomeação de Marko Venício dos Santos Batista para o cargo de procurador judicial.
A correção administrativa, embora necessária, não apagou completamente o desgaste político. Pareceres técnicos da própria Procuradoria-Geral do Município já alertavam que a reclassificação feria o edital, a isonomia e a segurança jurídica, o que reforçou a narrativa de que o erro poderia ter sido evitado desde o início.
No fim, João Campos fez o que o instinto político mandou: sentiu o vento virar, avaliou o tamanho da confusão e bateu pino. Recuou para estancar a crise, preservar a imagem e evitar que um episódio pontual se transformasse em um símbolo duradouro de contradição entre discurso e prática.

