A política paraibana tem dessas ironias que nem roteiro de humor ousaria escrever. Em plena movimentação pré-2026, o médico Jhony Bezerra, recém-filiado ao PSD após romper com o grupo do governador João Azevêdo, reaparece nas redes sociais em modo campanha. Até aí, tudo dentro do script. O detalhe curioso é o conteúdo.
No jingle que começa a circular, Jhony exalta sua atuação como gestor da saúde em Campina Grande, destacando obras e avanços, com direito a frases de efeito: “tem obra que muda a paisagem e salva vidas” e o orgulho de ter participado da construção do Hospital da Mulher, apresentado como o maior hospital público da Paraíba. Clique AQUI e veja.
O problema — ou a graça, dependendo do ponto de vista — é que, ao vender sua própria imagem de gestor eficiente, Jhony acaba, inevitavelmente, fazendo propaganda direta do governo que decidiu deixar para trás.
Afinal, as obras citadas, os investimentos e a estrutura exaltada fazem parte de uma política pública conduzida pela gestão estadual. Ou seja: ao tentar reforçar seu currículo, o ex-aliado reforça, junto, a marca do governo João Azevêdo.
É como se, ao puxar para si os méritos, ele não conseguisse evitar dividir os aplausos com quem hoje já não está no mesmo palanque.
A cena ganha ainda mais camadas quando se lembra que Jhony foi candidato a prefeito de Campina Grande em 2024, teve cerca de 100 mil votos e agora muda de posição no tabuleiro político, filiando-se ao PSD a convite de Gilberto Kassab, em articulação conduzida pelo deputado Mersinho Lucena, filho do prefeito Cícero Lucena.
No novo grupo, a ideia é clara: reposicionar a imagem e construir um novo caminho até 2026. Mas, nesse início de caminhada, a comunicação parece carregar um curioso efeito colateral — aquele tipo de propaganda que, sem querer, beneficia o antigo chefe.
Ao dizer que o que ”tem a digital de Jhony Bezerra”, ele tenta mostrar que tem obra no currículo. E tem mesmo. Só não dá para esconder que, por trás de cada tijolo exaltado, existe também a assinatura de um governo do qual ele decidiu se afastar.
Na política, como se vê, até o marketing pode sofrer de memória seletiva — mas o eleitor, quase sempre, não sofre.