quinta-feira, 12 de março de 2026
Javier Milei na metade do mandato: choque econômico, queda da inflação e alto custo social
08/12/2025 20:10
Redação ON Reprodução

Metade do governo de Javier Milei, na Argentina, já foi suficiente para produzir uma transformação profunda na economia — com resultados que dividem opiniões, geram alívio em alguns indicadores e forte sacrifício social em outros. Um amplo balanço publicado pelo jornal El País mostra que, em pouco mais de um ano à frente da Casa Rosada, o presidente libertário promoveu um dos ajustes econômicos mais duros da história recente do país.

Eleito após derrotar o peronista Sergio Massa no segundo turno, Milei chegou ao poder com duas promessas centrais: derrubar a inflação e zerar o déficit fiscal. Desde os primeiros dias, iniciou um forte torniquete sobre os gastos públicos, com cortes de obras, demissões no funcionalismo, congelamento de salários e redução drástica de subsídios. O impacto foi imediato. Segundo dados reunidos pelo El País, a inflação anual, que beirava 211%, caiu para cerca de 30%. A alta mensal dos preços, que assustava o mercado e a população, foi reduzida para algo em torno de 2%.

O custo social, no entanto, é elevado. O consumo permanece deprimido e o poder de compra das classes médias e populares foi fortemente reduzido. A política cambial também passou por mudanças profundas. Após a liberação do mercado e o fim de restrições históricas, o dólar oficial sofreu forte correção. Ainda assim, a estabilização da moeda e a queda do risco país favoreceram o retorno da Argentina ao mercado internacional de capitais.

Ao mesmo tempo, a pobreza, que havia disparado no início do governo, passou a apresentar recuo nos últimos meses, chegando ao menor patamar desde 2018, de acordo com os indicadores analisados pelo jornal espanhol. Especialistas ouvidos pelo El País apontam que a desaceleração da inflação tem papel central nesse movimento, apesar de o empobrecimento acumulado ainda ser expressivo.

No campo político e administrativo, Milei também promoveu uma verdadeira devassa no Estado. Mais de 185 altos funcionários já deixaram o governo, entre demissões e pedidos de exoneração. As áreas mais atingidas foram Economia, Capital Humano e a Chefia de Gabinete. O discurso de “enxugar a máquina” tem sido aplicado com rigor, mas gera instabilidade constante na estrutura administrativa.

Mesmo diante da turbulência econômica e social, o presidente mantém níveis relevantes de apoio popular. Os levantamentos citados pelo El País indicam que a taxa de aprovação de Milei supera a de desaprovação, algo incomum em governos submetidos a choques tão severos. O respaldo vem especialmente de setores que apostam que o sacrifício atual abrirá caminho para uma recuperação mais duradoura.

A dinâmica da economia argentina também mudou de perfil. Setores como pesca, intermediação financeira e exploração mineral apresentaram os maiores crescimentos, enquanto a construção civil e o mercado imobiliário seguem patinando, ainda afetados pela retração do crédito e dos investimentos públicos.

Passados os primeiros meses de impacto, o governo agora enfrenta o maior desafio: transformar a estabilização macroeconômica em crescimento com inclusão. O próprio El País destaca que, embora os números mais recentes tragam sinais de alívio, a sustentação política e social desse modelo ainda está longe de ser garantida.

Metade do mandato de Javier Milei mostra, até aqui, uma Argentina menos inflacionária, mais dura socialmente e ainda cheia de incertezas sobre seu futuro. O choque foi aplicado. Resta saber se o organismo resistirá às sequelas.

Fonte: El País

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