segunda-feira, 27 de julho de 2026
Incidente da Cagepa expõe Campina Grande no olho de um furacão que ninguém consegue explicar
09/11/2025 12:54
Redação ON Reprodução

O rompimento do reservatório da Cagepa, na manhã deste sábado (8), é uma tragédia com dimensão humana e material que comoveu toda a Paraíba, e ainda exige respostas técnicas, perícia, responsabilidade e acolhimento às famílias atingidas.

Mas, para além do fato em si, o episódio expõe um sentimento que já vinha sendo notado, não por estatística, não por tese acadêmica, mas por sensibilidade social: Campina Grande está atravessando um momento diferente. Não é um declínio. Não é um fracasso coletivo. Não é algo que possa ser resumido a uma causa só. É um período estranho.

A Rainha da Borborema, que construiu sua reputação histórica na capacidade de reação, de inovação e de autoestima, tem convivido, simultaneamente, com situações desconfortáveis em segmentos que normalmente não se cruzam.

Na UEPB, uma greve longa e desgastante.
Na saúde municipal, atrasos salariais que viraram ação judicial.
No setor privado de alta complexidade, o episódio do Hospital Help.

Nem o futebol escapou. No ano do centenário, o Treze chegou a cogitar pedir falência judicial, algo que seria inimaginável em qualquer outro momento de sua história.
E o Campinense, outra referência histórica do esporte paraibano, teve recentemente a energia cortada por falta de pagamento, uma imagem símbolo de um tempo que Campina jamais se acostumou a ver.

Na política há igualmente um enigma que merece ser estudado e decifrado. Pedro Cunha Lima, que em 2022 levou a cidade ao protagonismo eleitoral do segundo turno e ultrapassou a marca de um milhão de votos no estado, não aparece hoje, ao menos nas pesquisas mais recentes, como o nome natural, automático, inevitável para a disputa do Governo em 2026. Ele continua sendo um ator central, mas a engenharia da próxima eleição estadual ainda não o posicionou com clareza, se como candidato direto, se compondo chapa, ou se construindo outra rota. Isso surpreende porque o histórico de Pedro Cunha Lima projetaria o contrário.

Esse conjunto de fatores não forma uma sentença. Forma um estado de transição. E transições sempre carregam aparência de caos, até que sejam compreendidas em retrospecto.

E é importante registrar: o lado virtuoso continua existindo. E forte. Pesquisadores da UEPB acabam de desenvolver um método de baixo custo para detectar metanol em bebidas, e isso ganhou repercussão nacional. Há vitalidade. Há talento. Há produção intelectual efetiva.

O que está acontecendo em Campina não tem nome ainda. É um intervalo.

Essas fases existem na sociologia urbana: não são períodos de decadência, são momentos de reorganização silenciosa.

Campina Grande não perdeu o que ela é. Ela está, apenas, atravessando um trecho instável do caminho.

E, como todo trecho instável, vai passar.

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