O paraibano Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados pelo Republicanos, atravessa o momento mais instável de sua gestão e já é alvo de movimentos que cogitam retirá-lo do comando da Casa. A avaliação de bastidores no DF encontrou eco entre líderes partidários: é difícil derrubar um presidente da Câmara, mas não é impossível — e Motta coleciona erros que abriram essa brecha.
O desgaste se agravou com a condução desastrada do processo que poderia levar à perda do mandato de Eduardo Bolsonaro por faltas. Embora o regimento permita a cassação, a decisão exige assinatura dos sete membros da Mesa Diretora, algo que Motta não tinha garantido. Dois deles já se declararam contra logo de saída, e a articulação para impedir a punição ganhou força. Para muitos parlamentares, o presidente cometeu um erro básico: levou a pauta ao limite sem ter segurança de que tinha votos.
Entre quarta e madrugada de quinta, a fragilidade ficou ainda mais evidente. A Câmara reverteu duas punições importantes — a cassação de Carla Zambelli e a cassação de Glauber Braga — em votações que passaram por cima da articulação da Presidência. Partidos que antes compunham a base de apoio simplesmente deixaram de seguir Motta, o que ampliou o cerco contra ele.
Nos bastidores, líderes afirmam que Motta perdeu a capacidade de conduzir o plenário. Citam como símbolo o episódio em que Glauber sequestrou a cadeira da presidência, gerando tumulto e violência contra jornalistas. A partir dali, consolidou-se a percepção de que o paraibano já não controla a Casa.
Circula com força a hipótese de um movimento conjunto entre PT e PL para removê-lo. A lógica é pragmática: ambos avaliam que Motta rompeu pontes com suas lideranças e se tornou incapaz de articular votações estratégicas — seja para o governo, seja para a oposição.
O Planalto, por sua vez, já opera no “varejo”, negociando voto a voto, como ocorreu nos escândalos do mensalão, do petrolão, do orçamento secreto e, mais recentemente, da emenda Pix. A operação para amenizar a pena de Glauber Braga partiu de dentro do próprio governo e mostrou que a Câmara vive um vácuo de comando.
Hugo Motta, que ascendeu da Paraíba à cadeira mais poderosa do Legislativo, agora enfrenta o risco político mais sério de sua trajetória. E o risco, desta vez, não é retórico: é real.
Votações salvam mandatos de Glauber Braga e Carla Zambelli
Na madrugada desta quinta-feira, o plenário decidiu poupar dois parlamentares ameaçados de cassação. O PSOL apresentou uma emenda para substituir a cassação de Glauber Braga por suspensão de seis meses, e a proposta foi aprovada com apoio do governo e partidos do Centrão.
Em seguida, Carla Zambelli também escapou da perda de mandato após o parecer contra ela não alcançar os 257 votos necessários.
As duas decisões ocorreram à revelia do presidente da Câmara e reforçaram a leitura de que Hugo Motta perdeu o controle político da Casa.

