O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), virou personagem de um roteiro que lembra novela política: uma semana está alinhado com o governo Lula, na outra faz acenos ao bolsonarismo, e logo depois volta a estender a mão ao Planalto.
Nos últimos dias, o paraibano deu sinais claros de que não pretende entregar tudo o que a oposição pede. Conseguiu frear a pressão do PL e empurrou para depois do julgamento de Jair Bolsonaro qualquer discussão sobre anistia ao ex-presidente. Não marcou data, não indicou relator e deixou o assunto em banho-maria. Resultado: até mesmo integrantes do Centrão, que na semana passada já cogitavam embarcar na tese bolsonarista, agora veem o perdão como menos provável.
Ao mesmo tempo, Motta tratou de dar uma demonstração de prestígio ao governo. Marcou para esta quarta-feira (10) a votação da medida provisória que reduz a conta de luz, bandeira cara a Lula. O gesto foi recebido no Planalto como um sopro de alívio, depois de dias de tensão diante da ameaça de paralisia da pauta.
Governo respira, oposição reclama
O Palácio agora aposta em aprovar, até o fim de setembro, o projeto que amplia a faixa de isenção do Imposto de Renda — o grande trunfo de Lula para 2026. O relator Arthur Lira (PP-AL) já deu parecer favorável. Também estão na fila a PEC da Segurança Pública e a MP do Gás do Povo, todas tratadas como prioridades.
Aliados de Motta dizem que ele tenta passar a imagem de normalidade, mostrando que a Câmara funciona mesmo em meio à guerra política acirrada pelo julgamento de Bolsonaro no STF. Mais que isso: quer deixar como marca de sua gestão a reforma administrativa, uma pauta de longo prazo.
O outro lado da moeda
Do lado do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) também ajudou a esfriar a tese da anistia. Irritado com a cobrança feita por Flávio Bolsonaro nos atos de 7 de setembro, o presidente do Senado fechou ainda mais a porta para a proposta. Sem aval dele, a ideia tem poucas chances de prosperar.
Diante desse cenário, a oposição deve redobrar a pressão sobre Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), visto como herdeiro natural de Bolsonaro em 2026. Mas, se o governador paulista não se empenhar em convencer o Congresso, corre o risco de perder terreno no próprio campo bolsonarista.

