A reação do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), recoloca a Paraíba no centro da discussão sobre a montagem dos palanques presidenciais de 2026 e desmonta, ao menos nos bastidores locais, a ideia de que o estado já estaria completamente pacificado para a campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nesta segunda-feira (20), os principais veículos da imprensa nacional repercutiram o avanço do PT na consolidação de alianças estaduais. Reportagens destacaram que o partido chega ao período das convenções com a situação praticamente resolvida em 25 estados e apenas um impasse oficial em Goiás. A Paraíba sequer aparece entre os casos problemáticos, o que leva à conclusão de que, para a direção nacional petista, o cenário local estaria definitivamente equacionado.
Mas a fala de Hugo Motta revela uma realidade bem diferente.
Em declaração de forte conteúdo político, o presidente da Câmara evitou confirmar apoio à reeleição de Lula e condicionou qualquer alinhamento do Republicanos a “gestos concretos de reciprocidade” por parte do Palácio do Planalto. Na prática, o recado foi interpretado como uma cobrança pública ao presidente da República.
A razão é conhecida nos bastidores. Hugo trabalha para eleger o pai, o ex-prefeito de Patos Nabor Wanderley, ao Senado, na chapa encabeçada pelo governador Lucas Ribeiro, ao lado do ex-governador João Azevêdo. Entretanto, Lula mantém uma relação política consolidada também com o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), que disputará igualmente uma vaga no Senado.
Como a eleição permite dois votos para senador, a tendência construída até agora é que Lula apoie Lucas Ribeiro para o Governo, João Azevêdo para uma das vagas ao Senado e preserve o compromisso político com Veneziano para a segunda vaga. Esse desenho reduz o espaço político pretendido pelo Republicanos para Nabor Wanderley.
Foi justamente esse cenário que motivou a subida de tom de Hugo Motta. Ao afirmar que alianças não podem ser automáticas e dependem de reciprocidade, o deputado deixa claro que o apoio do Republicanos à campanha presidencial petista não pode ser tratado como um ativo garantido.
O episódio evidencia um contraste entre a fotografia produzida em Brasília e a realidade da política paraibana. Enquanto o mapa nacional contabiliza a Paraíba como um estado resolvido, os movimentos mais recentes mostram que a principal disputa ainda está longe de ser encerrada. O debate já não gira em torno apenas da vaga de vice da chapa governista, mas também da distribuição dos apoios ao Senado — um tema capaz de influenciar diretamente o posicionamento de um dos principais aliados do governo no Congresso Nacional.
A manifestação de Hugo Motta indica que, ao contrário do que sugerem os levantamentos nacionais, a construção do palanque de Lula na Paraíba ainda depende de negociações delicadas. E, pelo tom adotado pelo presidente da Câmara, a conta política ainda está aberta.