Depois de um 2025 marcado por ruídos, conflitos públicos e embates que o colocaram no centro de sucessivas turbulências políticas, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entrou em 2026 num modo bem diferente: mais discreto, menos afeito a declarações ruidosas e com a clara percepção de que, no comando da Casa, nem toda briga precisa ser travada em praça pública. O deputado parece ter entendido que, em determinados momentos, trabalhar no silêncio rende mais do que bater de frente com todo mundo ao mesmo tempo.
Esse novo estilo ficou evidente na condução do anúncio da votação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, marcado para a próxima semana. A decisão veio no rastro do novo tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que elevou para 15% as tarifas globais sobre produtos importados. Em vez de transformar o episódio num palanque político, Motta optou por uma sinalização institucional: dar previsibilidade às relações comerciais do Brasil e acelerar a tramitação de um acordo que se arrasta há anos no Congresso.
Nos bastidores, a estratégia é clara: menos exposição pessoal e mais foco em construir consensos mínimos em torno de pautas consideradas estratégicas para o país. Ao escolher o deputado Marcos Pereira (Republicanos-SP) como relator da proposta, Hugo também reforça a linha de condução interna no Republicanos, evitando ruídos dentro da própria base partidária num momento sensível da agenda econômica.
O acordo Mercosul–União Europeia, assinado em janeiro, cria a maior área de livre-comércio do mundo e depende agora da chancela dos parlamentos nacionais. No Brasil, o texto passa pelo Parlasul, pela Câmara e pelo Senado. A leitura no Planalto e no Congresso é de que, diante do protecionismo mais agressivo de Washington, ampliar e diversificar mercados deixou de ser apenas um discurso diplomático para virar uma necessidade prática.
Se em Brasília Hugo Motta tenta “aparecer menos”, na Paraíba o movimento é exatamente o oposto. O deputado mantém uma agenda intensa de articulações políticas mirando 2026: trabalha pela própria reeleição, atua como um dos principais cabos eleitorais do pai, Nabor Wanderley, pré-candidato ao Senado, e se movimenta para fortalecer a chapa governista no estado, que tem Lucas Ribeiro como candidato ao governo e João Azevêdo também na disputa por uma vaga no Senado.
É um jogo em duas frentes. No plano nacional, o presidente da Câmara parece ter aprendido com os excessos do ano passado e adotado uma postura mais cautelosa, quase low profile, para reduzir o desgaste institucional. No plano local, porém, não há silêncio: há presença, articulação e campanha. Hugo Motta tenta provar que é possível baixar a cabeça em Brasília sem tirar o pé do acelerador na Paraíba.