A anistia de Jair Bolsonaro, se um dia acontecer, começa por um paraibano. E hoje ela está, literal e politicamente, nas mãos do presidente da Câmara, Hugo Motta. Nenhum outro personagem do tabuleiro tem tanto poder de acionar — ou de enterrar — o gatilho que os bolsonaristas chamam de “justiça histórica” e o Supremo classifica como “inconstitucional”.
Mas esse protagonismo caiu no colo de Hugo Motta no pior momento possível: justamente quando ele se tornou o mais novo inimigo do PT em Brasília.
O rompimento com o PT impulsionou a pressão pela anistia
A semana começou com faíscas públicas entre Hugo Motta e Lindbergh Farias, líder do governo na Câmara. O embate descambou para um rompimento declarado. O PT agora enxerga o paraibano como adversário político direto. E, no mundo de Brasília, onde símbolos falam mais que votos, ser “inimigo do PT” tem efeito imediato: aumenta a pressão para que ele coloque a anistia de Bolsonaro em votação.
Foi nessa brecha que o ex-presidente se moveu. Segundo o senador Flávio Bolsonaro, o pai ligou pessoalmente para Hugo Motta e para Davi Alcolumbre, pedindo, insistindo, quase implorando: “Pautem a anistia”. A ordem no bolsonarismo é tirar o tema da gaveta enquanto Bolsonaro cumpre prisão preventiva.
E, institucionalmente, só há um caminho: a Câmara vota primeiro. Sem Hugo Motta, nada anda.
Uma missão delicada: agradar Bolsonaro sem desafiar o STF
A partir daí, o enredo ficou ainda mais sensível. Antes de tomar qualquer decisão, Hugo Motta procurou ministros do Supremo. Ele abriu uma rodada de conversas reservadas com Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Flávio Dino — um gesto raro e revelador de que ele sabe onde está pisando.
Ministros já advertiram que uma anistia ampla é inconstitucional. E Motta, que já comprou briga com o PT, não pretende abrir outra frente com o Judiciário numa pauta tão sensível quanto explosiva.
Também há outro risco: pautar o tema e ver o Senado derrubar tudo no dia seguinte, expondo a Câmara a um desgaste nacional em ano pré-eleitoral.
O fato novo: Mônica Bergamo aposta que Hugo Motta não vai pautar
Em meio a essa tempestade política, surgiu um dado novo e relevante. A colunista Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo, afirma que Hugo Motta não deve pautar a anistia. Segundo ela, o presidente da Câmara tem, até agora, o respaldo da maioria dos partidos para manter o projeto guardado — apesar da prisão de Bolsonaro e da nova mobilização do PL.
Para Bergamo, Mota caminha para avançar apenas no projeto da dosimetria, que reduz penas e poderia beneficiar inclusive o próprio ex-presidente, suavizando parte da pressão.
Essa leitura reforça a imagem de um Hugo Mota que tenta administrar a crise, equilibrando interesses sem romper com o STF nem colocar sua liderança em risco.
O tabuleiro no Senado: Messias, Alcolumbre e a moeda da anistia
Enquanto isso, no Senado, o cenário está ainda mais tenso. Davi Alcolumbre tenta impor a Lula uma derrota pessoal na indicação ao Supremo. Parte do Congresso avalia que votos contra Jorge Messias poderiam ser trocados por algum tipo de sinalização sobre a anistia.
Lula resiste. Diz que, se perder, não indicará Rodrigo Pacheco para nada.
Hoje, Alcolumbre usa votos; Lula usa a PF. E a anistia virou parte central dessa guerra fria.
Bolsonaro preso e o ambiente político em combustão
Há ainda o elemento emocional: Bolsonaro está preso, acusado de violar a tornozeleira eletrônica. Isso incendiou parte do Congresso. E, como reconhece um ministro do Supremo, mesmo quando um acordo é desenhado antes da votação, “depois cada um volta ao seu discurso eleitoral”.
Por isso, a anistia total é dada como improvável. O que existe hoje é uma negociação em torno da dosimetria.

