Até a semana passada, o deputado Hervázio Bezerra ainda insistia em algo que parecia improvável: uma reconciliação política entre João Azevêdo e Cícero Lucena. Ele era uma das últimas vozes dentro do PSB que defendiam a convivência possível entre governador e prefeito, mesmo após o afastamento gradual dos dois grupos. Uma posição que soava quase romântica em meio a um ambiente político cada vez mais polarizado.
Na noite desta terça-feira, no programa 60 Minutos, da Rádio Arapuan, apresentado por Cacá Barbosa e Fernando Braz, o deputado Hervázio deixou claro que a destituição do seu filho, Léo Bezerra, da presidência municipal do PSB foi o estopim de um rompimento emocional e político. O deputado falou como pai, como parlamentar e como alguém que se sentiu pessoalmente atingido.
Para quem acompanhou sua trajetória recente, o contraste foi nítido: quem pregava diálogo agora fala em sentimento ferido, gravidade, injustiça — e responsabilidade direta do governador.
O grande responsável
Sem citar meias palavras, Hervázio acusou o secretário Tibério Limeira de ser o articulador da queda de Léo, afirmando que ele “venceu” ao criar um afastamento entre ambos. A crítica subiu de temperatura quando o deputado chamou Tibério de “bajulador” e disse que ele atuou no “pé do ouvido” do governador.
O tom contra João Azevêdo também mudou. Hervázio lembrou que tentou falar com o governador às 7h30 da manhã, antes de tudo acontecer, mas não recebeu resposta. Disse que não iria “rastejar”, nem “se humilhar”, e questionou ao vivo se o governador considera justa a forma como tratou Léo.
Mesmo sob forte emoção, o deputado afirmou que não tomará decisões precipitadas. Disse que o futuro do grupo – hoje formado por ele, Léo e o vereador João Bezerra — será discutido com “café e cabeça fria”. Mas admitiu que todas as possibilidades estão na mesa, inclusive rever o apoio ao governo.
Mágoa evidente
Num dos momentos mais pessoais da entrevista, Hervázio afirmou que não consegue separar o político do pai. Repetiu que tem “vergonha na cara”, que sempre foi coerente e que está magoado. Por várias vezes disse que a situação é dura, pesada, e que está “de cabeça erguida”, mesmo sabendo que “pancadas virão”.
A fala inteira deixa claro que o deputado atravessou um limite emocional e político. Aquele moderador natural entre João e Cícero, aquele que ainda acreditava numa reaproximação improvável, parece não existir mais.
O episódio da filiação de Cícero ao MDB abriu uma rachadura; o dia seguinte, com a destituição de Léo, transformou essa rachadura num abismo.