A dois dias da votação, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) terão nesta sexta-feira (23) uma última oportunidade de confrontar propostas, responder a acusações e disputar eleitores diante de uma audiência nacional. Com os candidatos separados por apenas um ponto na pesquisa Quaest — 45% para Flávio e 44% para Lula —, o debate da Globo pode ganhar peso na decisão de quem ainda não definiu o voto. O encontro começa às 21h20, depois do Jornal Nacional, com mediação de César Tralli.
A transmissão será feita dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, pela TV Globo, GloboNews, g1 e Globoplay. O formato atualizado prevê quatro blocos e considerações finais. Duas regras merecem atenção: haverá limites para a circulação dos candidatos e as verificações das declarações serão publicadas na internet, sem checagem ao vivo na transmissão televisiva.
Como serão os blocos
Primeiro bloco: serão seis rodadas de perguntas sobre assuntos relacionados às regiões brasileiras e a um tema prioritário nacional. Cada candidato terá três minutos por rodada, divididos entre pergunta e réplica ou resposta e tréplica.
Segundo bloco: os candidatos escolherão assuntos entre as opções apresentadas em um telão para formular perguntas ao adversário. Cada um terá três minutos por rodada, seguindo a mesma divisão do primeiro bloco.
Terceiro bloco: mantém a dinâmica anterior, com perguntas sobre temas apresentados pela emissora e três minutos para cada candidato por rodada.
Quarto bloco: será de tema livre. Cada candidato terá oito minutos de fala, sem limite de intervenções dentro desse tempo.
A ordem das perguntas será definida por sorteios conduzidos pelo mediador César Tralli. O programa também terá espaço para as considerações finais dos dois candidatos.
A ordem será organizada por sorteios conduzidos pelo mediador. O programa também terá espaço para as considerações finais dos presidenciáveis.
Quem poderá andar pelo palco
Nos três primeiros blocos, a regra é simples: quem estiver falando poderá circular; quem estiver ouvindo deverá permanecer no próprio púlpito. Quando a palavra passar ao adversário, os papéis se invertem. Portanto, a liberdade de movimento estará vinculada à vez de falar.
No quarto bloco, os dois poderão se movimentar, mas cada um ficará limitado ao seu lado do cenário. A autorização não significa liberdade para atravessar o palco e acompanhar o oponente.
A restrição ocorre depois da controvérsia no debate da Band, quando Flávio se posicionou atrás de Lula enquanto o presidente falava. Segundo a Folha de S.Paulo, a mudança foi solicitada pela campanha petista e recebeu, nos bastidores da emissora, o apelido de “regra antideboche”.
Checagem durante o debate, mas fora da tela da TV
As declarações serão verificadas por uma equipe do g1, com publicação das checagens na página do Fato ou Fake durante o encontro. A Globo, porém, não fará a correção das falas ao vivo na transmissão televisiva, como reivindicavam mobilizações nas redes sociais.
Na prática, o espectador precisará acompanhar o serviço digital para consultar as verificações enquanto assiste ao confronto. Também é preciso distinguir checagem durante o evento de correção instantânea: conferir um número, recuperar uma declaração ou examinar documentos exige apuração. O formato anunciado não garante que toda afirmação seja verificada imediatamente após ser pronunciada.
Quando um debate muda uma eleição
O equilíbrio nas pesquisas amplia a expectativa sobre o encontro. Uma resposta convincente, uma contradição ou uma reação de descontrole podem dominar a repercussão da reta final. Isso não permite afirmar antecipadamente que o debate decidirá a eleição: seu efeito se mistura à avaliação dos governos, à identificação partidária e aos acontecimentos da campanha.
A história oferece exemplos de confrontos que marcaram disputas — alguns com consequências concretas, outros cercados até hoje por controvérsias sobre seu verdadeiro alcance.
Collor e Lula, em 1989: o debate e a edição
No Brasil, o caso mais emblemático é o último confronto entre Fernando Collor e Lula, realizado em 14 de dezembro de 1989, três dias antes do segundo turno. Além do desempenho dos candidatos, a edição exibida no Jornal Nacional no dia seguinte tornou-se parte central da controvérsia: a seleção de trechos e o tempo destinado a cada participante favoreceram Collor. A própria Globo registra o episódio em sua página de erros. O caso permanece como advertência sobre o peso da repercussão de um debate, embora não permita atribuir a vitória de Collor exclusivamente ao programa ou à edição.
Para Lula e Flávio, a particularidade desta sexta-feira é o pouco tempo disponível para reagir à repercussão. Entre o encerramento do programa e a votação de domingo, uma frase, uma resposta ou uma imagem poderá acompanhar o eleitor até a urna. É essa combinação de disputa apertada e proximidade da eleição que dá ao último debate potencial para se tornar um ponto de inflexão da campanha.
Nos Estados Unidos…
Nos Estados Unidos, o debate entre John Kennedy e Richard Nixon, em 1960, tornou-se símbolo do peso da imagem na política. Kennedy demonstrou segurança diante de um Nixon com aparência abatida, num confronto que marcou a campanha, embora não seja possível atribuir a vitória apenas à televisão.
Em 2024, a consequência foi mais direta: o desempenho de Joe Biden contra Donald Trump ampliou as dúvidas sobre sua capacidade de disputar a reeleição. A pressão entre democratas cresceu e, semanas depois, Biden desistiu da candidatura e apoiou Kamala Harris.