quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Fraude, rombo e bloqueio de R$ 54 bilhões: entenda a crise histórica da Americanas
26/06/2026 07:52
Redação ON Reprodução

O que parecia ser apenas uma “inconsistência contábil” de R$ 20 bilhões, anunciada em janeiro de 2023, revelou-se o maior escândalo corporativo da história do mercado financeiro brasileiro. Longe de ser um mero erro de planilha, o caso da Americanas S.A. foi classificado pelas autoridades como uma fraude deliberada e sistêmica, estruturada ao longo de pelo menos uma década. O anúncio derrubou as ações da empresa na Bolsa de Valores, pulverizou a confiança do mercado e forçou a gigante do varejo a entrar em uma severa recuperação judicial.

A engenharia por trás do rombo baseava-se em duas principais manobras: o chamado “risco sacado” e a falsificação de verbas de propaganda. Na prática, a antiga diretoria pegava empréstimos bilionários com bancos para pagar fornecedores, mas escondia essas dívidas do balanço oficial, registrando-as falsamente como contas de fornecedores e não como débitos bancários. Ao mesmo tempo, eram criados contratos fictícios de incentivo comercial para inflar artificialmente os lucros da companhia. O esquema fazia a empresa parecer altamente saudável, garantindo bônus milionários para os executivos enquanto o prejuízo real já ultrapassava os R$ 24 bilhões.

Os impactos da fraude formaram uma reação em cadeia que atingiu diferentes esferas da economia. No topo da pirâmide, os grandes bancos credores (como Bradesco, Itaú e Santander) viram-se diante de calotes bilionários. Na base, milhares de pequenos fornecedores perderam contratos ou ficaram sem receber, o que provocou o fechamento de centenas de lojas físicas pelo país e demissões em massa. Além disso, os acionistas minoritários viram suas economias derreterem na Bolsa, evidenciando uma falha grave nos mecanismos de fiscalização das auditorias externas, que aprovaram as contas fraudadas por anos.

As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal ganharam tração com delações premiadas de ex-executivos e o indiciamento de mais de uma dezena de nomes da antiga cúpula, incluindo o ex-CEO Miguel Gutierrez, que chegou a ser preso na Espanha. Em 2026, a operação policial ganhou novos desdobramentos, ampliando o foco para além da diretoria executiva. As investigações passaram a mirar também a possível omissão ou influência de acionistas bilionários ligados ao comitê de controle da empresa e até mesmo executivos de grandes instituições financeiras, resultando em bloqueios de bens que chegam à casa dos R$ 54 bilhões.

Hoje, a Americanas tenta costurar sua sobrevivência em meio a um cenário de terra arrasada. Após fechar acordos de injeção de capital com o trio de acionistas de referência (Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles), a varejista chegou a pedir à Justiça o encerramento de sua recuperação judicial no início de 2026. Contudo, o processo de retomada segue sob forte desconfiança e vigilância da Polícia Federal, que apura se os dados apresentados para o fim da recuperação foram adulterados. A marca sobrevive nas ruas e no ambiente digital, mas carrega o peso de um rombo que mudou para sempre as regras de governança no Brasil.

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