O Brasil manteve, entre as décadas de 1950 e 1960, um quartel-general na Faixa de Gaza, onde milhares de soldados do país integraram a primeira força de paz da Organização das Nações Unidas (ONU). Esses militares testemunharam alguns dos momentos mais tensos do nascente conflito entre os Estados árabes e o recém-estabelecido país de Israel.
Faz exatamente 70 anos que os senadores e deputados autorizaram o então presidente Juscelino Kubitschek a enviar para o Oriente Médio o chamado Batalhão Suez. O Decreto Legislativo 61 foi aprovado e assinado em 22 de novembro de 1956 pelo senador Apolônio Sales (PSD-PE), que exercia a Presidência do Senado.

Poucas semanas depois, em 11 de janeiro de 1957, o navio militar com os 530 soldados do primeiro contingente do Batalhão Suez zarpou do Rio de Janeiro para juntar-se à força de paz da ONU na região conflagrada.

Os brasileiros permaneceram na Faixa de Gaza até 1967. A cada semestre, uma parte da unidade era renovada. No total, em torno de 6 mil brasileiros participaram da missão. Ao longo desse período, sete morreram.
Os Arquivos do Senado e da Câmara, em Brasília, guardam a mensagem que embasou o projeto de decreto legislativo enviado ao Congresso Nacional. Nela, o governo JK argumentou que, ao contribuir para “a paz no Oriente Médio”, o Brasil não apenas ajudaria a resolver uma crise internacional, mas também reforçaria sua própria imagem como uma potência média “responsável”, capaz de influenciar os rumos da política mundial.
“Através de uma ação policial que levará o selo da mais alta organização internacional, teremos demonstrado às demais nações que sabemos e podemos assumir, no momento devido, a posição de relevo que, por todos os motivos, nos cabe e à qual de nenhum modo podemos renunciar”, escreveu no documento o ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares.
O projeto foi aprovado na Câmara em uma semana, e no Senado, em um dia. Apesar disso, os documentos históricos mostram que os planos de JK enfrentaram resistência no Congresso Nacional. O deputado Carlos Lacerda (UDN-DF) questionou o argumento de que a participação na missão de paz daria ao Brasil prestígio no cenário geopolítico internacional.
— Em que consiste esse prestígio? Em que aumentou o prestígio da Colômbia por mandar seus jovens morrerem na [Guerra da] Coreia? Diminuiu o prestígio do Brasil por não haver agido na crise da Coreia? O prestígio do Brasil não é aferido, segundo se procura fazer crer, junto à ONU. O Executivo brasileiro deveria procurar obtê-lo junto ao Departamento de Estado, junto ao Banco de Exportação e Importação [ambos dos Estados Unidos].
Lacerda acusou o governo JK de nem sequer ter calculado os custos da “aventura leviana” para os cofres públicos.
— O Executivo não sabe a quanto montam as despesas. Entretanto, já pode dizer quem vai comandar o contingente, de que batalhão vai sair, quantos homens vão e até como se vão vestir os rapazes: com capacetes de plástico, com antenas ou outros distintivos no braço, faixas azuis e outros enfeites, segundo consta do comunicado mundano hoje fornecido à imprensa pelo Ministério do Exterior — criticou.
O deputado Jonas Baiense (PTB-RJ) também avaliou que a ação não traria benefício algum para o Brasil:
— De nenhuma forma podemos pretender que nossa presença [no Oriente Médio] faça com que o Brasil deixe de ser uma nação fraca do ponto de vista bélico e econômico. Ao contrário, as despesas com a força expedicionária significarão uma aplicação improdutiva de divisas.
Além disso, segundo ele, o recrutamento de soldados para atuar no Oriente Médio provocava “descontentamento e intranquilidade” nas famílias brasileiras.
O deputado Celso Peçanha (PTB-RJ) afirmou que o Brasil poderia contribuir com a ONU de outras formas, não com um contingente militar.
— Fala-se em compromissos internacionais, em acordos que assinamos. Lembraria apenas que o Brasil não precisaria enviar um soldado sequer porque, ainda cumprindo o citado acordo, poderíamos servir às Nações Unidas com o abastecimento de víveres, desenvolvendo, então, o parque industrial do país.
O Brasil correria um sério risco caso se pusesse entre árabes e israelenses, advertiu o deputado João Machado (PTB-DF).
— A força expedicionária brasileira, colocada entre dois países inimigos, estaria fatalmente envolvida no conflito. O Brasil e as demais forças que ali se encontrassem seriam arrastados numa conflagração talvez generalizada e muito pior que as duas últimas guerras mundiais, das quais temos triste recordação.
Recorrendo a trechos da Bíblia que tratam do povo judeu, o deputado Colombo de Souza (PSP-CE) também censurou o governo JK.
— Não sei por que tanta pressa e tanta sofreguidão para tomarmos parte numa luta que já dura 50 séculos e que, de acordo com as Escrituras Sagradas, deverá durar até a consumação dos tempos.
O deputado Fernando Ferrari (PTB-RS) foi um dos defensores do projeto.
— A posição do Brasil sempre foi gizada pela arbitragem e pelo pacifismo. Sempre interviemos para aplainar dificuldades e realçar o primado da justiça e do direito. O Brasil, fiel ao seu passado glorioso, nunca deixaria de estender uma mão de paz e compreensão ao mundo atribulado pela guerra
Também favorável à criação do Batalhão Suez, o deputado Padre Ponciano dos Santos (PRP-ES) disse que a ONU só conseguiria agir se contasse com tropas dos países-membros.
— Quando se trata de uma organização que não tem por finalidade guerrear, mas garantir a paz dos povos, precisa naturalmente do seu policiamento, porque sabemos que, onde está a balança, precisa estar a espada também. Essa expressão simbólica de 500 soldados representará o apoio moral da nação brasileira aos princípios do direito internacional.
O contingente enviado pelo Brasil ganhou o apelido de Batalhão Suez porque o episódio que deu origem àquela guerra árabe-israelense foi a nacionalização do Canal de Suez, em 26 de julho de 1956, determinada pelo presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser.

O canal é uma hidrovia artificial estratégica localizada em território egípcio que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho, encurtando drasticamente a navegação entre a Europa e a Ásia. Entre os produtos transportados por Suez, o mais estratégico era — e ainda é — o petróleo extraído no Oriente Médio.
Na época, o canal era controlado, em sociedade, pela França e pela Grã-Bretanha. Com a nacionalização, Nasser desejava direcionar a renda proveniente da operação do canal para a construção da Represa de Assuã, no sul do país, a geração de energia hidrelétrica e a expansão da agricultura por meio da irrigação.
Expulsas do controle do canal, França e Grã-Bretanha se juntaram a Israel numa ofensiva militar contra o Egito, vizinho dos israelenses. Israel havia sido criado apenas oito anos antes e enfrentava a hostilidade dos países árabes.
Assim que a Guerra de Suez eclodiu, o senador Kerginaldo Cavalcanti (PSP-RN) saiu em defesa do Egito:
— No que se refere a qualquer empresa existente em solo egípcio, é incontestável o direto do governo desse país a efetuar a sua nacionalização. Se admitíssemos o contrário, seria o mesmo que, havendo no Brasil a Stantard Oil [empresa petrolífera americana] e outras companhias monopolistas desse jaez, não pudesse o governo brasileiro efetuar a encampação delas, porque a isso se opunha, pela força e pela violência, o governo americano.
Vivia-se a Guerra Fria, disputa ideológica entre os americanos, capitalistas, e os soviéticos, socialistas. Nesse ambiente conturbado, o Egito se aproximava da União Soviética, ameaçando os interesses capitalistas — em especial o transporte do petróleo árabe para a Europa e os Estados Unidos.
Diante do risco de americanos e soviéticos se enfrentarem e darem início a uma nova guerra mundial, o Conselho de Segurança da ONU entrou em cena e conseguiu um cessar-fogo entre egípcios e israelenses, que entrou em vigor em 7 de novembro de 1956.
Na avaliação do deputado Jonas Baiense, a Guerra Fria já era um motivo suficiente para que o Brasil não se aventurasse no Oriente Médio:
— Não devemos julgar que, envolvendo nosso país numa guerra, estaremos isentos de ataques das grandes potências. Qualquer um dos dois grupos que entrassem em choque numa próxima guerra estaria em condições de lançar bombas atômicas sobre o território brasileiro, por meio de foguetes teledirigidos. Melhor será que o governo pondere com mais equilíbrio sobre nossa atuação no campo internacional, a fim de que não atraia sobre o povo brasileiro as desgraças da destruição atômica.
A ONU organizou uma missão de paz para garantir que egípcios e israelenses cumprissem o cessar-fogo. Como não dispõe de forças militares próprias, a organização acionou os países-membros. Diversos países atenderam ao chamado, mas apenas dez foram selecionados, entre os quais o Brasil.
Coube à Primeira Força de Emergência das Nações Unidas (Unef 1) vigiar a linha de armistício entre o Egito e Israel, de modo a impedir invasões e ataques mútuos. Os integrantes dessa missão ficaram conhecidos como “capacetes azuis”, apelido que passou a ser utilizado em todas as missões posteriores da ONU.
O historiador Virgílio Arraes, professor da Universidade de Brasília (UnB), explica que JK tinha motivos de ordem internacional e doméstica para aderir à força de paz da ONU. No campo da política externa, segundo ele, a busca era mesmo por prestígio.
— A ideia era que o Brasil, com dimensões continentais, não recebia o reconhecimento que julgava merecer, tanto na região quanto no mundo. O país havia participado da Segunda Guerra, com a FEB [Força Expedicionária Brasileira] e seus pracinhas, e ainda tinha oficiais nos altos postos com experiência real de combate. Além disso, o Brasil já nutria a pretensão de ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Participar da missão no Oriente Médio fortaleceria a candidatura, acrescentando um argumento a favor do país.
No plano doméstico, segundo Arraes, o que motivou JK foi a necessidade de valorizar os militares.
— O Brasil ainda vivia os efeitos da crise política aberta pelo suicídio de Getúlio Vargas [em 1954], agravada pelo governo turbulento de Café Filho e pelas tentativas da UDN e de parte das Forças Armadas de impedir a posse de Juscelino [em 1956]. A participação em uma força da ONU poderia fortalecer o prestígio do novo governo e, ao mesmo tempo, valorizar a classe militar. Mais de uma década após a experiência da FEB na guerra, tratava-se também de oferecer a uma nova geração de militares a oportunidade de atuar em uma missão internacional.

Integrante da Unef 1, o Brasil instalou sua base num antigo forte britânico localizado no sul da Faixa de Gaza — região que estava sob controle e administração militar do Egito. Israel não permitiu a entrada das forças da ONU em seu território. O Batalhão Suez patrulhou 50 quilômetros da extensa linha de armistício, numa área de deserto.
Além das instalações militares, a base contava com áreas para o descanso do contingente brasileiro em Gaza, como o Cine Brasília. A ONU promovia partidas de futebol e basquete entre os países da missão de paz. Os expedicionários trocavam cartas com seus familiares no Brasil por meio de um serviço postal aéreo que era quinzenal e gratuito.

Em 1965, de acordo com documentos do Arquivo do Senado, o senador Vasconcelos Torres (PTB-RJ) citou o Batalhão Suez para defender um projeto que obrigaria todas as representações do Brasil no exterior, fossem diplomáticas, comerciais ou militares, a usar apenas veículos fabricados pela indústria brasileira, como os caminhões da estatal Fábrica Nacional de Motores (FNM, popularmente chamada de “Fenemê”).
— Sabe-se que o contingente militar brasileiro que integra a força das Nações Unidas em Suez usa caminhões e jipes de fabricação brasileira. E não se desconhece também que nenhum desses veículos ficou imobilizado até agora por falta de peças, sendo magnífica a promoção que vêm fazendo para a indústria brasileira, inclusive pelo bom desempenho que as ditas viaturas estão alcançando — argumentou.
Nos dez anos de permanência da Unef 1 no Oriente Médio, o Brasil não passou por grandes confrontos militares. O percalço surgiu justamente na hora de o contingente deixar a base em Rafah e voltar definitivamente para o país.
Em maio de 1967, o Egito exigiu que a força internacional de paz deixasse seu território. Por dificuldades logísticas, o Brasil não conseguiu retirar seus homens com rapidez, e eles foram pegos de surpresa pela eclosão da Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, quando Israel atacou o Egito e tomou a Península do Sinai e a Faixa de Gaza. O Batalhão Suez ficou no meio do fogo cruzado entre israelenses e egípcios.
A base brasileira foi invadida por soldados israelenses logo no primeiro dia da guerra. Ignorando que ainda havia homens da força de paz da ONU em território inimigo, eles acharam que se tratava de guerrilheiros palestinos e atiraram. O cabo e enfermeiro Carlos Adalberto Ilha de Macedo foi atingido por um tiro no pescoço e morreu — a única baixa brasileira por fogo inimigo naqueles dez anos.
Desfeito o mal-entendido, os brasileiros foram liberados e tiveram autorização para entrar em Israel, de onde embarcaram de volta para o Brasil, encerrando a missão.
Outros seis homens do Batalhão Suez morreram entre 1957 e 1967, mas em consequência de acidentes no manuseio de armas e episódios de “fogo amigo” no patrulhamento do deserto.

Alguns integrantes do Batalhão Suez se tornaram nacionalmente conhecidos mais tarde, como o cabo Antônio Viana Gomes, que ganhou fama como ator e cantor com o nome artístico Tony Tornado, e o segundo-tenente Carlos Lamarca, que desertou do Exército durante a ditadura militar para se tornar guerrilheiro. As biografias de Lamarca apontam que o contato com a pobreza da população de Gaza contribuiu para sua identificação com as ideias socialistas.
O historiador militar Carlos Daróz faz um balanço positivo da participação brasileira na Unef 1 tanto do ponto de vista diplomático quanto no campo militar.
— O Brasil ampliou sua presença na ONU e reforçou sua imagem como um ator moderador no cenário internacional. A missão também projetou o profissionalismo dos militares brasileiros e fortaleceu a cooperação entre a nossa diplomacia e as nossas Forças Armadas. Em termos militares, trouxe aprendizados importantes em operações multinacionais, comando integrado, logística expedicionária e missões de estabilização.
Dois generais brasileiros chegaram a comandar toda a Força de Emergência da ONU, o que, segundo o historiador, mostra a relevância alcançada pelo Brasil dentro da missão. Daróz entende que o Batalhão Suez serviu como referência para a participação que o país teria, posteriormente, em outras missões internacionais:
— O Brasil acumulou uma importante experiência que seria aplicada posteriormente em operações em Moçambique, Angola, Timor-Leste, Haiti e Líbano. Em muitos aspectos, Suez foi o marco inicial das missões brasileiras de paz e estabilização e ajudou a consolidar uma tradição de participação do país nessas operações.

Décadas após servirem no Batalhão Suez, os “capacetes azuis” brasileiros viram seu trabalho ser reconhecido mundialmente quando as forças de paz da ONU receberam coletivamente o Prêmio Nobel da Paz de 1988.
No Brasil, porém, a realidade foi bem diferente. Ao fim da missão, muitos militares receberam baixa automática, já que eram reservistas ou haviam sido convocados para o serviço militar obrigatório. Sem apoio para a reinserção na vida civil, passaram décadas enfrentando sozinhos dificuldades financeiras e as sequelas deixadas pela experiência no Oriente Médio.
Diante da falta de amparo oficial, organizaram associações de ex-combatentes para preservar a memória da missão e reivindicar direitos. A mobilização de décadas resultou na aprovação da Lei 14.765, de 2023, que garante pensão especial vitalícia aos veteranos em situação de vulnerabilidade. A lei teve origem em um projeto do Senado (PLS 332/2011).
