Um artigo publicado pelo jornal argentino Clarín, assinado pelo jornalista Ignacio Miri, faz um retrato crítico do momento político e econômico do governo de Javier Milei, apontando o que define como uma estratégia de “fingir demência” diante de crises que se acumulam e ainda têm dimensão incerta.
Segundo o texto, essa postura não estaria restrita ao presidente, mas teria se espalhado por todo o gabinete da Casa Rosada. Um alto funcionário do governo, sob anonimato, descreve o ambiente interno como uma tentativa de agir como se episódios recentes — como o chamado “Caso Libra” e questionamentos sobre viagens oficiais — não tivessem relevância política.
O artigo destaca que Milei parece apostar na eficácia dessa linha de conduta, mantendo compromissos internacionais considerados controversos. Um exemplo citado é a viagem à Hungria para participar de mais uma edição da CPAC, evento que reúne lideranças da direita global. A agenda ocorre poucos dias após outra viagem à Espanha, reforçando a percepção de um presidente mais presente em fóruns ideológicos do que na gestão direta das crises internas.
Na análise de Miri, essa estratégia pode até funcionar em momentos pontuais, mas não se sustenta diante do atual cenário argentino. O mercado financeiro, segundo o texto, já teria reagido com desconfiança. O risco-país atingiu 633 pontos, o maior nível do ano, mesmo após o ministro da Economia, Luis Caputo, assegurar que o governo tem recursos para honrar suas dívidas. Para investidores, diz o artigo, a credibilidade do discurso oficial já não é suficiente.
O diagnóstico se estende para além das finanças. O jornalista aponta que o modelo econômico adotado por Milei — baseado em exportações de setores como mineração, energia e agronegócio — não tem sido capaz de gerar empregos na mesma proporção em que cresce. A crítica ganha peso com a observação de que avanços tecnológicos, especialmente a inteligência artificial, começam a impactar também países de renda média, reduzindo postos de trabalho inclusive em áreas de serviços e tecnologia.
Outro ponto sensível levantado pelo artigo é a persistência da inflação. Apesar do ajuste fiscal, da redução da base monetária e da relativa estabilidade do dólar, os preços continuam subindo em torno de 3% ao mês, patamar que, segundo economistas citados, cria uma inércia difícil de romper.
O texto conclui com uma dúvida que começa a circular até entre analistas simpáticos ao governo: Milei está disposto a rever sua estratégia ou seguirá apostando em um modelo que, ao mesmo tempo em que entrega alguns resultados, expõe fragilidades cada vez mais visíveis?