O dinheiro que deveria pagar o supermercado, a conta de luz ou a fatura do cartão pode acabar nas apostas online. Quando isso acontece com frequência, o orçamento fica comprometido, contas atrasam e empréstimos passam a ser usados para cobrir despesas essenciais.
Pesquisa comportamental do Procon-SP, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 com 2.724 consumidores, identificou que, entre os 355 participantes que apostam ou jogam online, 39,7% relataram ter dívidas relacionadas à atividade. Além disso, 52,4% afirmaram ter comprometido parte significativa da renda, recorrido a aplicações financeiras ou tomado empréstimos para apostar.
Com as restrições às plataformas, o debate passa a incluir os possíveis efeitos sobre o endividamento das famílias e a qualidade das carteiras de crédito. Para Marco Afonso, especialista de negócios da Simplic, primeira plataforma de crédito pessoal 100% online do país, a redução dos gastos com apostas pode abrir espaço para a reorganização financeira dos consumidores e, no longo prazo, contribuir para uma carteira de crédito mais saudável.
A mudança, porém, não elimina as dívidas já contraídas. Quem recorreu a empréstimos para apostar ou cobrir perdas continua responsável pelos pagamentos. “Se parte da renda antes destinada às apostas voltar a ficar disponível, o consumidor terá uma oportunidade de reorganizar o orçamento e retomar o pagamento de suas obrigações. Para o mercado de crédito, esse movimento pode contribuir para uma carteira mais saudável, desde que acompanhado de maior controle financeiro e capacidade efetiva de pagamento”, afirma o especialista.
Como começar a reorganizar as finanças
Para quem acumulou dívidas, o primeiro passo é entender o tamanho do problema. Listar empréstimos, parcelas, faturas em atraso e demais compromissos ajuda a identificar quanto da renda está comprometido e quais pagamentos exigem prioridade.
Para quem busca retomar o controle financeiro, Marco recomenda algumas medidas para reorganizar o orçamento e renegociar dívidas:
- Mapear as dívidas: reunir valores em aberto, credores, juros e vencimentos para ter uma visão completa dos compromissos.
- Priorizar despesas essenciais: reservar dinheiro para moradia, alimentação, água, energia e transporte antes de definir quanto pode ser destinado às dívidas.
- Negociar com os credores: buscar alternativas de parcelamento e descontos que sejam compatíveis com a renda disponível.
- Avaliar as condições do acordo: comparar juros, número de parcelas e custo total. Uma prestação menor nem sempre significa uma dívida mais barata.
- Evitar novos empréstimos sem planejamento: contratar crédito para cobrir dívidas antigas pode prolongar o endividamento se não houver redução efetiva dos custos.
“Interromper os gastos com apostas pode ser uma oportunidade para recuperar o controle do dinheiro, mas a reorganização financeira exige planejamento. É importante negociar condições realistas e assumir compromissos que possam ser cumpridos sem comprometer as despesas básicas”, afirma Afonso.
Para o setor de crédito, os efeitos dependerão de como os consumidores vão administrar os recursos que deixam de ser destinados às apostas. No curto prazo, quem já está endividado pode continuar enfrentando dificuldades de pagamento. No longo prazo, a redução desses gastos, combinada à renegociação das dívidas, poderá favorecer a recuperação financeira das famílias e contribuir para uma carteira de crédito mais saudável.
