A tão temida “prova da baliza”, vilã histórica dos exames de direção e pesadelo de milhares de candidatos à Carteira Nacional de Habilitação (CNH), deixou de ser uma regra universal no Brasil. Contudo, para os futuros motoristas da Paraíba, o alívio não chegou. Em uma decisão que divide opiniões e redesenha o mapa da habilitação no país, o Departamento Estadual de Trânsito da Paraíba (Detran-PB) confirmou que manterá a obrigatoriedade da manobra, indo na contramão de grandes centros que decidiram simplificar o processo.
A raiz dessa disparidade está na Resolução 1.020/2025 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que entrou em vigor em janeiro deste ano. A norma federal trouxe uma mudança de paradigma: em vez de impor um modelo único, ela concedeu autonomia aos Detrans estaduais para decidirem como aplicar seus exames. A diretriz sugerida pelo órgão federal é priorizar a circulação em via pública — o trânsito real, com pedestres e semáforos — em detrimento das manobras em circuitos fechados.
Diante dessa liberdade, o Brasil amanheceu em 2026 dividido em duas realidades distintas. De um lado, estados como São Paulo, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Amazonas, Pará e Amapá optaram por abolir a etapa de baliza. Nesses locais, o foco passou a ser exclusivamente o percurso de rua, uma medida celebrada por candidatos que viam na manobra um obstáculo mais psicológico do que técnico. A expectativa nesses estados é de uma redução drástica na “indústria da reprovação”, facilitando a vida do cidadão que precisa do veículo para trabalhar.
A Paraíba e outros estados
Do outro lado, a Paraíba se alinha a um bloco mais conservador, juntamente com Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Acre, Rondônia e Sergipe. Nesses territórios, a avaliação permanece inalterada. A justificativa técnica para a manutenção do rigor é a segurança viária: o Detran paraibano entende que a baliza não é apenas uma manobra de estacionamento, mas um teste fundamental de domínio do veículo, controle de embreagem e noção espacial. Sem essa prova, argumentam os defensores do modelo antigo, o trânsito urbano poderia sofrer com motoristas incapazes de realizar tarefas básicas em espaços reduzidos.
Essa divergência cria um cenário curioso e, para muitos, injusto. O documento de habilitação tem validade nacional, mas o grau de dificuldade para obtê-lo agora depende do CEP do candidato. Para o paraibano, resta o sentimento de desigualdade ao ver vizinhos de outros estados obterem a mesma licença com um exame considerado mais brando. Enquanto paulistas se livram do trauma dos cones, quem tentar a habilitação em João Pessoa ou Campina Grande continuará tendo que provar, sob a pressão do cronômetro, que domina a arte de estacionar.
A nova legislação também abriu portas para outras modernizações, como o uso de carros automáticos nos exames, algo já abraçado pelos estados que eliminaram a baliza. Porém, na Paraíba, a mensagem é de cautela e continuidade. A lei mudou, o Brasil flexibilizou, mas por aqui a tradição do rigor continua valendo.