João Pessoa, sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Envelhecer sem enlutar: como atravessar as mudanças da idade sem perder a identidade
30/10/2026 09:15
Redação ON Reprodução

Envelhecer é ganhar histórias, experiências e perspectivas, mas também conviver com mudanças que nem sempre são fáceis de aceitar. A aposentadoria, a saída dos filhos de casa, as limitações físicas, a necessidade de ajuda para atividades cotidianas e a perda de pessoas queridas podem provocar a sensação de que partes importantes da própria identidade ficaram para trás. São perdas que nem sempre recebem o nome de luto, mas que podem exigir um processo de adaptação emocional. O Brasil está envelhecendo e o debate sobre saúde emocional precisa acompanhar essa transformação

O envelhecimento populacional torna essa discussão cada vez mais relevante. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), do IBGE, as pessoas com 60 anos ou mais representavam 16,6% da população brasileira em 2025, ante 11,3% em 2012. O país tinha 35,2 milhões de pessoas nessa faixa etária em 2025. O crescimento desse grupo reforça a importância de discutir não apenas a longevidade, mas também a qualidade de vida, a autonomia, os vínculos afetivos e a saúde mental ao longo dos anos.

O luto que não vem de uma morte

O luto também pode aparecer diante de perdas simbólicas: deixar de exercer uma profissão, perceber mudanças na própria capacidade física, depender de outras pessoas ou sentir que já não ocupa o mesmo lugar na família e na sociedade. Essas experiências não são iguais para todos e não significam necessariamente um transtorno psicológico. No entanto, quando não encontram espaço para ser reconhecidas e elaboradas, podem contribuir para sentimentos de tristeza, isolamento e perda de sentido.

O artigo Perspectivas do Envelhecimento como Processo de Luto: Uma Revisão Narrativa, publicado na Revista Amazonense de Geriatria e Gerontologia, aborda as perdas simbólicas associadas ao envelhecimento e as transformações que podem afetar a autonomia, a identidade e os vínculos sociais. A discussão amplia a compreensão do luto para além da morte de uma pessoa querida e reforça a importância de reconhecer as mudanças dessa etapa da vida, criando espaço para novas possibilidades de adaptação e realização.

“Envelhecer não precisa significar abandonar quem se é. Ao longo da vida, todos nós passamos por mudanças e perdas, mas elas não precisam apagar nossa identidade. O desafio é reconhecer o que mudou, permitir-se sentir a tristeza quando ela aparece e, ao mesmo tempo, descobrir quais vínculos, projetos e possibilidades continuam disponíveis. Não se trata de negar o luto, mas de não deixar que ele seja a única forma de interpretar o envelhecimento”, explica Dante Ogassavara, Mestre em Ciências do Envelhecimento e docente na Universidade São Judas.

Cinco caminhos para envelhecer sem perder a conexão consigo mesmo

  1. Reconheça as mudanças sem reduzir sua identidade a elas. O corpo, a rotina e as responsabilidades podem mudar, mas essas transformações não apagam a trajetória, os conhecimentos e os afetos construídos ao longo da vida.
  2. Construa novos papéis e projetos. A aposentadoria ou a saída dos filhos de casa podem abrir espaço para atividades, aprendizados e relações que não cabiam na rotina anterior. Não é necessário substituir tudo o que foi perdido, mas descobrir o que ainda pode fazer sentido.
  3. Preserve vínculos e crie conexões. Amizades, convivência comunitária, grupos de interesse e contato entre gerações ajudam a manter a sensação de pertencimento. A vida social não deve depender exclusivamente da família.
  4. Peça ajuda sem interpretar a necessidade de apoio como fracasso. Adaptar a rotina, aceitar recursos de acessibilidade ou receber ajuda em determinadas tarefas não diminui o valor de uma pessoa. Autonomia também significa poder participar das decisões sobre a própria vida.
  5. Procure apoio emocional quando as perdas parecerem insuperáveis. Psicólogos e outros profissionais de saúde podem ajudar a elaborar mudanças, trabalhar sentimentos de inutilidade ou solidão e encontrar novas formas de construir sentido. Tristeza persistente, isolamento intenso e perda significativa de interesse pelas atividades merecem atenção e não devem ser atribuídos automaticamente à idade.

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