A Seleção Brasileira venceu a Croácia por 3 a 1 no World Camping Stadium, em Orlando, nos Estados Unidos, no último amistoso antes da Copa do Mundo. O resultado teve peso técnico e emocional. Além de ser um adversário tradicional, a Croácia carrega o simbolismo de ter eliminado o Brasil no último Mundial, o que deu à partida um componente psicológico especial.
Mais do que isso, a vitória encerrou uma sequência incômoda de resultados ruins. O Brasil vinha de derrota para a França e empate com a Tunísia, o que aumentava a pressão sobre Carlo Ancelotti. A seleção foi melhor durante boa parte do jogo, controlou a Croácia, criou mais chances e parecia encaminhar um triunfo seguro. Mas o roteiro mudou no fim: depois de abrir o placar com Danilo Santos, o Brasil sofreu o empate aos 39 minutos do segundo tempo e viu o clima voltar a pesar. Foi então que apareceu Endrick. Pouco depois de entrar, o atacante sofreu o pênalti que acabou convertido por Igor Thiago. Depois o garoto ainda deu a assistência para Martinelli marcar o terceiro, selando a vitória e evitando que Ancelotti deixasse Orlando sob cobrança ainda maior.
Para o técnico italiano, o resultado funciona como alívio imediato. A pressão diminui, o ambiente fica menos hostil e ele ganha um pouco mais de tranquilidade para pensar na lista final da Copa do Mundo e na estrutura do time que pretende levar ao torneio. A convocação definitiva acontecerá em maio. Nos números, a vitória também ajuda. Em 10 jogos no comando da seleção, Ancelotti soma agora 5 vitórias, 2 empates e 3 derrotas, com aproveitamento de 56,6%. Antes da partida, esse índice era de 51%. Ainda assim, o dado continua incômodo: mesmo com a melhora, Ancelotti segue abaixo dos 58,3% de aproveitamento de Dorival Júnior, demitido justamente porque seus números foram considerados insuficientes.
Individualmente, a seleção apresentou destaques claros. Luiz Henrique foi, mais uma vez, o jogador mais desequilibrante do time. Mesmo caçado pelos croatas, enfrentando marcadores mais fortes fisicamente, não se intimidou e seguiu sendo uma válvula de escape constante pelo lado direito. Vinícius Júnior também conseguiu entregar o que não havia mostrado contra a França: participou mais, atacou com confiança e foi decisivo na construção das principais jogadas ofensivas. No meio, Danilo deu ao time algo que vinha faltando: dinâmica, criatividade e menos burocracia. É o volante moderno, que marca, mas também sabe jogar, acelerar e infiltrar. Não por acaso, apareceu na frente para marcar o primeiro gol brasileiro.
Na defesa, a presença de Marquinhos como capitão e referência foi determinante. Organizou o sistema, transmitiu segurança e mostrou o quanto fez falta no jogo anterior. Já Ibañez, improvisado na lateral direita, pode ter aberto uma alternativa interessante para Ancelotti, que ainda busca soluções para o setor. Zagueiro de origem, ele se comportou bem na função, com firmeza defensiva e participação segura. O treinador ainda aproveitou para rodar o elenco, usando as oito substituições permitidas. E foi justamente uma dessas mexidas que mudou o desfecho da noite: Endrick entrou, mostrou intensidade, brigou por cada bola e, no momento mais delicado da partida, sofreu o pênalti, deu assistência, mostrando uma incrível personalidade, ajudando na vitória e salvar e também Ancelotti de uma pressão muito mais pesada às vésperas da Copa.
A força do contra-ataque
O primeiro gol do Brasil, marcado por Danilo Santos, nasceu de uma jogada que já virou marca registrada de Vinícius Júnior, lapidada por Ancelotti desde os tempos de Real Madrid. É o contra-ataque em sua forma mais pura, mas longe de ser algo casual: depende de um time treinado para reconhecer o momento certo da transição, de alguém com qualidade para executar o passe longo e, principalmente, de um jogador com a velocidade e a explosão que Vinícius possui. Foi exatamente o que aconteceu. Matheus Cunha percebeu a movimentação e acertou um passe milimétrico de cerca de 40 metros, daqueles que já deixam o atacante em vantagem antes mesmo do domínio.
Vinícius recebeu em velocidade, encarou três defensores e fez o que poucos conseguem fazer. Quebrou a linha croata com dribles curtos e mudanças de direção, até encontrar o instante exato para servir Danilo Santos. A assistência saiu limpa, precisa, praticamente um gol dado para o volante completar. Mais do que o lance em si, a jogada expõe um padrão treinado, repetido e pensado. E, no caso de Danilo, pode ter sido decisiva para colocá-lo de vez no radar da Copa do Mundo, coroando uma atuação sólida ao lado de Casemiro com o detalhe que muitas vezes decide convocações: a bola na rede.
