terça-feira, 3 de março de 2026
Empoderamento feminino: ONG no Sertão paraibano realiza cursos que transformam mulheres em empreendedoras
03/03/2026 10:32
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No Alto Sertão da Paraíba, mulheres têm transformado suas próprias histórias por meio da qualificação profissional e do fortalecimento do empreendedorismo. Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, a ONG Pisada do Sertão destaca os resultados do projeto Multiplica por Elas, iniciativa voltada especificamente para mulheres empreendedoras da região e que alia geração de renda, fortalecimento da autoestima e permanência no território.

Executado em 2025 em parceria com o Consulado da Mulher, o projeto foi implantado após a Pisada do Sertão ser selecionada em edital nacional, ficando entre as cinco organizações escolhidas entre 218 inscritas. A equipe passou por uma formação de uma semana, em São Paulo, para aplicar a metodologia no Sertão. Ao longo de seis meses, as participantes vivenciam encontros de autoconhecimento e desenvolvimento socioemocional e avançam para conteúdos de planejamento estratégico, finanças, precificação, marketing, comunicação, sustentabilidade e formalização.

“A metodologia do Multiplica por Elas é voltada apenas para mulheres empreendedoras, com foco nos seus negócios. Começamos com encontros de autoconhecimento e seguimos com planejamento estratégico e organização financeira”, afirmou Layza Anacleto, gestora de Inclusão Produtiva.

Segundo ela, o acompanhamento vai além da formação teórica. As empreendedoras recebem monitoramento mensal do fluxo de caixa, analisam faturamento, identificam dificuldades e constroem estratégias para ampliar os resultados. “Observamos transformações profundas. Muitas mulheres chegam com baixa autoestima e insegurança e passam a se reconhecer como capazes, protagonistas e empreendedoras”, contou Layza.

Histórias que mostram a transformação

Os resultados aparecem na prática. A costureira Suélia Maria é um dos exemplos dessa mudança. Antes de participar do curso, ela conta que tinha pouco conhecimento técnico e não se sentia segura para produzir peças completas. “Eu não tinha conhecimento de quase nada. Só fazia pequenos ajustes e não tinha coragem de fazer uma peça inteira”, afirmou Suélia.

A maior dificuldade era financeira. Sem trabalho fixo, dependia do Bolsa Família para pagar aluguel, água e luz. Após a formação e as orientações sobre organização financeira, passou a registrar entradas e saídas e se surpreendeu com o próprio faturamento. “Depois que aprendi a anotar tudo o que eu recebia e gastava, tomei um susto com o quanto eu estava faturando. Foi uma grande descoberta”, relatou.

Hoje, além de se sentir mais segura profissionalmente, ela já conseguiu adquirir uma máquina reta industrial usada, uma overlock e organizar melhor seu espaço de trabalho. “Hoje não tenho dificuldade de pegar um tecido e transformar em uma peça. A pessoa manda a foto e eu entrego igualzinho”, completou Suélia.

A artesã Fernanda Dias da Silva também viu seu empreendimento crescer. Proprietária de um ateliê de artesanato, ela vende principalmente pelo Instagram e envia produtos para todo o país. Antes da capacitação, não acreditava no potencial do próprio negócio e tinha dificuldades com as redes sociais. “Hoje elas são minhas grandes aliadas na divulgação e nas vendas”, afirmou.

Com a organização do fluxo de caixa e o planejamento aprendido no projeto, o faturamento mais que dobrou. “Meu negócio, que começou tão pequeno, já me rendeu minha casa própria, minha moto zero quilômetro e vários prêmios em dinheiro”, destacou Fernanda.

Para a manicure e pedicure Rosângela Ribeiro Amorim, que atende principalmente a domicílio, a principal mudança foi na forma de enxergar o próprio trabalho. Antes, ela via a atividade como renda extra e não como um negócio estruturado. Também enfrentava dificuldades na hora de calcular custos e definir preços. “Aprendi a valorizar meu tempo, separar o dinheiro do negócio do pessoal e planejar metas. Hoje me sinto mais confiante para investir e buscar crescimento”, explicou Rosângela.

Pertencimento e permanência no Sertão

De acordo com Layza Anacleto, as iniciativas da Pisada do Sertão já impactaram diretamente centenas de mulheres em municípios do Alto Sertão, especialmente em comunidades rurais, por meio de formações, acompanhamento produtivo, apoio à comercialização e fortalecimento de grupos. Entre os principais desafios enfrentados pelas mulheres da região estão o acesso limitado a crédito e mercado, a sobrecarga do trabalho doméstico e a desigualdade de gênero, fatores que dificultam a autonomia financeira e a participação em espaços de decisão.

Ao estimular o empreendedorismo e valorizar os saberes locais, os projetos contribuem para que as mulheres enxerguem o Sertão como um lugar de oportunidades. A geração de renda fortalece o sentimento de pertencimento e reduz o êxodo, permitindo que elas permaneçam em suas cidades com dignidade e perspectiva de futuro. “Quando as mulheres têm acesso a oportunidades, elas investem na família, na comunidade e no território. O protagonismo feminino é central para o desenvolvimento sustentável do Sertão”, pontuou Layza.

Outras iniciativas voltadas às mulheres

Além do Multiplica por Elas, a Pisada do Sertão desenvolve outras ações com forte participação feminina. Entre elas está o projeto Sertão Empreendedor, voltado para o turismo, que capacitou mulheres em cursos de artesanato em macramê. A instituição também realizou o projeto Pontos de Aprendizagem, direcionado às famílias dos atendidos, com participação majoritária de mulheres, especialmente mães, nos cursos de beleza, artesanato e culinária regional e o projeto Rotas do Sertão com cursos de culinária, artesanato e condutores de turismo.

A organização já planeja ampliar as ações voltadas ao público feminino, com novos projetos de formação, inclusão produtiva, empreendedorismo, sustentabilidade e fortalecimento das redes de mulheres. Neste 8 de março, a mensagem deixada pela coordenação é de reconhecimento e esperança. “As mulheres do Sertão são fortes, criativas e fundamentais para a transformação do território. Que sigam acreditando na sua capacidade e construindo, com coragem e união, um futuro mais justo e sustentável”, declarou Layza Anacleto.

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