O Tribunal Regional instalou, pela primeira vez, uma seção eleitoral na Comunidade Quilombola Caiana dos Crioulos, localizada na zona rural de Alagoa Grande, para as Eleições 2026. A instalação atende a uma reivindicação antiga dos moradores e moradoras, que antes precisavam percorrer cerca de 13 quilômetros de estrada de barro até a cidade para exercer o direito ao voto.
A seção eleitoral 171 foi instalada na Escola Municipal Firmo Santino da Silva, situada dentro da própria comunidade, e conta com 148 eleitores e eleitoras aptos a votar. Moradora de Caiana dos Crioulos, Josilene Salvino dos Santos Nascimento, recebeu capacitação para atuar como presidente da seção. “Gostei bastante de participar do processo eleitoral. Para a gente foi uma maravilha poder votar no nosso quilombo. Era uma cobrança antiga dos moradores e conseguimos através de muita luta”, declarou Josilene.
A conquista também foi celebrada por Emanuela Xavier, mãe de duas crianças, destacando a comodidade para quem precisa conciliar o exercício do voto com o cuidado com os filhos. “Ficou muito melhor poder votar aqui na comunidade. Como tenho duas crianças, era muito cansativo e ir até a cidade para votar, acabava chegando tarde em casa, relatou.
Maria das Neves Nascimento também enfatizou que a instalação de uma seção na comunidade trouxe mais conforto e comodidade ao eleitor. “Eu e meus familiares estamos muito felizes, pois era muito desgastante. Voltava para casa quase às 15h e ainda sem almoçar”, relatou
Para a juíza da 9° Zona Eleitoral de Alagoa Grande, Caroline Silvestrini, a instalação da seção eleitoral na comunidade quilombola representa o reconhecimento da importância de garantir o exercício da cidadania no próprio território, respeitando a história, a identidade e o sentimento de pertencimento de seus moradores. “A iniciativa teve o objetivo de garantir o exercício da cidadania, contribuindo para que o acesso ao voto acontecesse de forma mais acessível”, declarou.
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Seu Voto Importa
Do total de 370 eleitores(as) na Comunidade Quilombola Caiana dos Crioulos, 222 eleitores ainda votam na cidade. Dessa forma, os servidores da 9ª Zona Eleitoral providenciaram o transporte com o auxílio da Prefeitura de Alagoa Grande. Essa iniciativa integra o Programa Seu Voto Importa, que também garante o direito ao voto de populações domiciliadas em localidades remotas e desprovidas de linhas regulares de transporte coletivo.
Segundo a presidente da Associação, Cida de Caiana, quando reabrir o cadastro eleitoral, no dia 3 de novembro, os moradores poderão solicitar a transferência do título de eleitor para a comunidade. “Foi uma reivindicação antiga da comunidade. Na próxima eleição acredito que todos irão exercer sua cidadania no nosso território”.
O projeto Justiça Eleitoral Itinerante do Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba (TRE-PB), esteve na Comunidade Caiana dos Crioulos no dia 21 de novembro de 2023, para ofertar serviços eleitorais, como emissão de título de eleitor,transferência do local de votação, coleta de dados biométricos e regularização de pendências.
Tradição e resistência
O Quilombo Caiana dos Crioulos é um dos patrimônios culturais e históricos mais importantes de Alagoa Grande, reconhecido como símbolo vivo de resistência e preservação da ancestralidade negra no Brejo Paraibano. Certificada como comunidade remanescente de quilombo em setembro de 2024, a localidade mantém vivas tradições seculares que encantam pesquisadores, historiadores e turistas do mundo inteiro que buscam uma imersão na verdadeira identidade do Brasil. Entre as manifestações artísticas, estão os grupos de coco de roda e de ciranda, que se apresentam em eventos no estado e em outros lugares do país. Segundo o depoimento dos moradores mais velhos, o território existe há cerca de 500 anos.
Segundo informações do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) da comunidade foi publicado em dezembro de 2015. Segundo o documento, a origem da Caiana dos Crioulos não é concludente. Alguns autores afirmam que a população descenderia de ex-escravizados que por lá se instalaram entre os séculos XVIII e XIX, rebelados quando do desembarque de um navio negreiro aportado em Baía da Traição, no litoral norte da Paraíba. Outros entendem que o agrupamento teria se originado pela chegada à Alagoa Grande de sobreviventes do massacre do Quilombo dos Palmares, o que justificaria a existência da localidade denominada Zumbi nas proximidades do município.

