Uma simples rodada do Campeonato Brasileiro ajuda a entender o tamanho do problema que se aproxima do futebol. Basta olhar para as camisas. Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Fluminense, Botafogo e vários outros clubes carregam marcas de casas de apostas. O dinheiro das bets tomou conta do espaço mais valioso dos uniformes e se transformou numa das principais fontes de financiamento da Série A.
Agora, essa dependência pode cobrar seu preço.
Como O Norte Online destacou no final da noite de ontem, o governo federal está preparando fortes restrições ao mercado de apostas, os clubes fazem as contas e se movimentam em Brasília. Levantamento recente aponta que 13 dos 20 integrantes da Série A mantêm acordos comerciais com empresas de apostas. Somados, esses contratos chegam à casa de R$ 1 bilhão.
O Flamengo dá a dimensão do que está em jogo. A Betano pode pagar ao clube R$ 268,5 milhões por temporada, no maior contrato de patrocínio do futebol brasileiro. O Palmeiras recebe R$ 100 milhões fixos anuais da Sportingbet, valor que pode aumentar com metas. Corinthians, São Paulo, Fluminense, Botafogo e outros gigantes também recebem dezenas de milhões por ano do setor.
Não é mais dinheiro complementar. São receitas incorporadas aos orçamentos dos clubes, ajudando a pagar salários, contratações e estruturas cada vez mais caras. Uma retirada abrupta das bets abriria um buraco que dificilmente seria preenchido imediatamente por empresas de outros segmentos.
E há um detalhe que mostra como essa relação se tornou profunda: há poucos anos, bancos, montadoras, empresas de telefonia e grandes marcas de consumo disputavam o peito das principais camisas do país. Hoje, esse território é dominado pelas apostas.
Questão de saúde pública
O outro lado dessa conta está fora dos estádios. Em entrevista exclusiva a O Norte Online, o psiquiatra Giovanni De Toni, mestre em Ciências da Saúde e pesquisador em psiquiatria digital, alerta que a expansão das apostas já se transformou em questão de saúde pública.
“O transtorno aparece quando há perda de controle. A pessoa tenta parar ou diminuir a frequência e não consegue, mesmo percebendo os prejuízos”, afirma.
É esse o tamanho do impasse. O mesmo setor que passou a financiar uma parcela bilionária do futebol é alvo de crescente preocupação pelos efeitos do vício e do endividamento. Se as restrições avançarem, os clubes terão diante de si uma pergunta que durante anos não precisaram responder: quem vai colocar no futebol o dinheiro que hoje vem das bets?
Os clubes patrocinados pelas bets
Flamengo — Betano
Corinthians — Esportes da Sorte
Palmeiras — Sportingbet
São Paulo — Superbet
Atlético-MG — H2Bet
Fluminense — Superbet
Botafogo — Vbet
Cruzeiro — Betnacional
Vasco — Sportingbet
Santos — Novibet
Vitória — 7K Bet
Remo — Vaidebet
Chapecoense — ZeroUm
