O anúncio nesta segunda-feira (27) do empresário Diogo Cunha Lima como pré-candidato a vice-governador na chapa de Cícero Lucena, feito em Campina Grande, trouxe mais do que uma simples composição eleitoral. Revelou, ainda que de forma discreta, um movimento de afastamento dentro de uma das famílias mais influentes da política paraibana.
O dado mais simbólico veio da plateia: apenas uma vereadora da cidade marcou presença, Pâmela Vital. Para um grupo que sempre cultivou força e capilaridade política em Campina Grande, o esvaziamento chamou atenção e rapidamente virou termômetro nos bastidores. A leitura foi imediata: o prefeito Bruno Cunha Lima, embora integrante da família, está em campo oposto e conseguiu, ao menos neste episódio, impor sua influência sobre a base local.
Bruno apoia o senador Efraim Filho ao governo e trabalha para emplacar sua esposa, Juliana Cunha Lima, como candidata a vice na chapa adversária. É nesse ponto que a disputa deixa de ser apenas política e passa a tocar também na simbologia familiar. Nos bastidores, começou a circular uma discussão curiosa – e reveladora – sobre quem representaria, de fato, o “Cunha Lima legítimo” na disputa.
De um lado, Diogo carrega o peso direto da linhagem: é filho de Cássio Cunha Lima e irmão de Pedro Cunha Lima, nomes centrais da história recente do grupo. Do outro, Juliana entra no jogo pela via do casamento com Bruno, sobrinho em segundo grau de Cássio, o que levou alguns interlocutores a relativizarem sua condição dentro do clã.
Comparação com Michelle
A comparação que surgiu nos bastidores não demorou: aliados lembraram o caso de Michelle Bolsonaro, que, mesmo sem vínculo sanguíneo com a família do ex-presidente, nunca teve sua identidade política questionada. A analogia expõe mais do que uma discussão genealógica – revela o desconforto interno e a tentativa de delimitar espaços de poder dentro de um grupo que, até pouco tempo, atuava de forma mais coesa.
Enquanto isso, nomes importantes circularam pelo evento, como Pedro Cunha Lima, Romero Rodrigues, Tovar Correia Lima, Fábio Ramalho e Camila Toscano, além de auxiliares da gestão municipal. Mas até mesmo entre esses apoios houve sinais de desalinhamento. A ausência da vereadora Ivonete Ludgério, por exemplo, contrastou com a presença do marido, Manoel Ludgério, evidenciando que nem todos os movimentos estão completamente ajustados.
O que se viu em Campina Grande foi mais do que um lançamento de pré-candidatura. Foi um retrato de um grupo dividido, ainda que em silêncio, onde laços familiares já não garantem alinhamento político automático – e onde cada gesto, presença ou ausência, passa a ter peso de recado.
