A disputa eleitoral na Paraíba ganhou espaço no noticiário nacional com a mudança de postura do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB). Conhecido em Brasília pelo discurso de moderação e pela tentativa de manter diálogo com diferentes forças políticas, Motta passou a adotar um tom mais duro na campanha paraibana, especialmente nos ataques ao senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), adversário de seu pai, Nabor Wanderley (Republicanos), na corrida pelo Senado. O novo perfil do parlamentar foi destacado em reportagem publicada pelo jornal O Globo, do Rio de Janeiro.
Além de trabalhar pela eleição do pai, Motta disputa a própria reeleição para deputado federal. A campanha estadual colocou o presidente da Câmara diretamente no centro de uma batalha que envolve ainda a relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apoiado por Motta na eleição presidencial, mas cujo partido está oficialmente ao lado de Veneziano na disputa pelo Senado.
O endurecimento do discurso começou ainda na pré-campanha. Em junho, depois de Lula declarar apoio à reeleição de Veneziano, Motta classificou o senador como “desesperado” e afirmou que ele tentava se agarrar ao prestígio do presidente da República como seu “único bastião de sobrevivência”.
Nas últimas semanas, o confronto ficou ainda mais explícito. Em entrevista à TV Arapuan, Motta chamou Veneziano de “vazio” e “amargo” e afirmou que o senador “só vomita ódio e não entrega nada à Paraíba”. Também acusou o adversário de recorrer à influência do irmão, Vital do Rêgo, presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), para pressionar prefeitos em busca de apoio eleitoral.
Veneziano reagiu desafiando Motta e Nabor a apresentarem um único prefeito que tivesse sido pressionado pelo presidente do TCU. Disse ainda que abandonaria a disputa caso a acusação fosse comprovada e cobrou que os adversários retirassem suas candidaturas se não apresentassem provas.
A discussão chegou também ao Senado. Durante a sessão que aprovou Rodrigo Pacheco para o TCU, a senadora Daniella Ribeiro (PP-PB), candidata a suplente de Nabor, afirmou, sem citar nomes, que existem ministros do tribunal que fazem “chantagem diretamente com prefeitos”, inclusive na Paraíba, para conseguir votos para candidatos ligados à própria família.
Ao mesmo tempo em que trava essa batalha no estado, Motta mantém uma relação de aproximação com Lula. Em agosto, declarou apoio à reeleição do presidente e afirmou que o petista “converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país”. Em agenda realizada em Patos, principal reduto político de sua família, apareceu usando boné vermelho com o nome de Lula e fez o tradicional “L” com a mão.
É justamente esse contraste que levou a política paraibana ao noticiário nacional. Em Brasília, o presidente da Câmara construiu a imagem de articulador, eleito com apoio de partidos que vão do PT ao PL e obrigado pelo cargo a negociar permanentemente com governo e oposição. Na Paraíba, em plena campanha, assumiu um papel diferente: entrou pessoalmente no confronto e elevou o tom contra o principal adversário de seu pai.
Aliados atribuem a mudança ao ambiente eleitoral. O líder do Republicanos na Câmara, Augusto Coutinho (PE), disse a O Globo que “certamente a eleição” explica o novo comportamento. A expectativa dentro do grupo é de que, encerrada a disputa de outubro, Motta volte ao estilo mais moderado adotado na presidência da Câmara.
A campanha paraibana, porém, colocou uma questão local sob os holofotes de Brasília: um dos personagens mais importantes da política nacional está pessoalmente envolvido numa das disputas mais acirradas pelo Senado na Paraíba — e, pelo menos até as urnas, deixou a moderação de presidente da Câmara em segundo plano.
