Enquanto o deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) reage com irritação a qualquer interlocução direta entre autoridades brasileiras com empresários e com autoridades dos EUA, sobre a nova taxação imposta por Donald Trump, parte da direita começa a adotar uma postura mais pragmática — ou ao menos ideológica — diante da crise comercial.
Nesta terça-feira (15), o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), respondeu publicamente às críticas feitas por Eduardo, que se disse “desrespeitado” por Tarcísio ter procurado empresários e interlocutores nos EUA em busca de uma solução para as tarifas. “Sem problemas. Neste momento, estou olhando para São Paulo, para o seu setor industrial, para sua indústria aeronáutica, de máquinas e equipamentos, para o nosso agronegócio, para nossos empreendedores e trabalhadores”, disse Tarcísio à CNN, em tom apaziguador — mas firme.
A rusga expõe a tensão crescente dentro do campo bolsonarista. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Eduardo chegou a dizer que foi mais eficaz que o próprio Itamaraty nas articulações com os norte-americanos. Mas acrescentou que sua prioridade no momento é “pressionar” o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes — e não exatamente mediar questões comerciais.
Na Paraíba, o racha se manifesta de forma ainda mais sutil, mas igualmente simbólica. Um vídeo gravado no Salão Verde da Câmara mostra deputados de partidos do Centrão e do próprio PL, entre eles Cabo Gilberto Silva (PL-PB), declarando-se contra as tarifas de Trump. “Somos contra de forma óbvia. Isso vai prejudicar mais de 200 milhões de brasileiros”, afirmou o deputado, bolsonarista histórico e um dos mais fiéis seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Embora continue alinhado ideologicamente ao bolsonarismo, Cabo Gilberto sinalizou que, neste caso, o interesse econômico nacional se sobrepõe à fidelidade incondicional a Trump — algo raro entre os parlamentares do PL. A fala ocorre num momento em que parte da direita tenta se descolar da narrativa do confronto automático com os EUA, buscando evitar que a crise vire um desgaste político.
A postura de Tarcísio e a fala de Cabo Gilberto indicam que, ao menos nos bastidores, cresce a percepção de que o enfrentamento com Washington pode custar caro. E que o bolsonarismo, neste novo tabuleiro internacional, pode precisar escolher entre fidelidade ideológica e sobrevivência política.