O segundo debate entre os candidatos ao Governo da Paraíba elevou consideravelmente a temperatura da campanha eleitoral. No confronto realizado neste domingo (9), pela TV Arapuan, afiliada da Band na Paraíba, Lucas Ribeiro (PP), Cícero Lucena (MDB) e Efraim Filho (PL) trocaram acusações sobre corrupção, investigações policiais, uso da máquina pública, segurança, abastecimento de água, contratações, obras e administrações passadas.
Se o primeiro debate da campanha pareceu relativamente ameno, o segundo teve pancadaria política e alguns golpes abaixo da linha da cintura.
O Norte Online pinçou pelo menos 23 ataques, acusações e provocações diretas feitos ao longo do confronto. E a contabilidade revela um detalhe importante para a leitura política do debate: não houve ataque direto de Cícero contra Efraim nem de Efraim contra Cícero.
Os dois candidatos de oposição concentraram a artilharia em Lucas, atual governador e líder das pesquisas. Lucas, por sua vez, respondeu aos dois adversários e também partiu para o ataque.
Houve momentos particularmente pesados. Efraim acusou Lucas de esconder o sobrenome Ribeiro para evitar associação com o tio, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro. Lucas relacionou Efraim a pessoas citadas em investigação da Polícia Federal sobre irregularidades no INSS. E, nas considerações finais, o governador atingiu Cícero com uma referência à possibilidade de a Polícia Federal bater à porta às cinco horas da manhã.
Veja a pancadaria:
1. Lucas para Cícero: duas mil crianças sem creche
Ao rebater questionamentos sobre suas entregas no governo, Lucas atacou a administração de Cícero na Prefeitura de João Pessoa.
“Você é o candidato que deixou duas mil crianças na fila da creche. Mas isso é o que você representa: você não consegue entregar nada”, afirmou.
2. Cícero para Lucas: pegando carona no governo passado
Cícero reagiu acusando Lucas de apresentar como próprias realizações que seriam resultado da administração anterior.
“Agora, mostre o que você fez. Está pegando carona no governo passado”, disse.
3. Lucas para Cícero: Parque do Roger abandonado
Lucas apontou problemas na conservação de equipamentos públicos municipais e colocou o Parque do Roger na conta do adversário.
“A sua marca é o Parque do Roger abandonado”, disparou.
4. Lucas para Cícero: Parque da Cidade abandonado
Na mesma sequência, Lucas acrescentou outro equipamento às críticas contra a administração municipal.
“O Parque da Cidade, lá no Bessa, abandonado.”
5. Lucas para Cícero: Estação Ciência virou casa de shows
O governador também atacou Cícero pela situação da Estação Cabo Branco.
“A Estação Ciência, você abandonou e criou uma casa de shows”, afirmou.
6. Cícero para Lucas: contratações de R$ 14 mil
Cícero questionou contratações realizadas pelo Governo do Estado e citou informações que atribuiu ao Portal da Transparência.
“Essas pessoas estão ganhando mais de R$ 14 mil”, disse, ao mencionar a contratação de 135 profissionais para duas funções específicas.
7. Lucas para Cícero: “Graças a Deus que você não é mais prefeito”
Lucas subiu o tom ao comemorar diretamente a saída de Cícero da Prefeitura de João Pessoa.
“Graças a Deus que você não é mais prefeito de João Pessoa”, declarou.
8. Lucas para Cícero: deixou João Pessoa no lixo
Na mesma intervenção, o governador responsabilizou Cícero pelas condições em que teria deixado a cidade para o sucessor.
“O seu gran finale foi deixar a cidade no lixo para o prefeito Léo ter que resolver essa bronca.”
9. Cícero para Lucas: uso da máquina e oferta de cargos
Cícero acusou Lucas de utilizar a estrutura do Governo do Estado e a oferta de cargos para conquistar apoios políticos durante o processo eleitoral.
A crítica colocou diretamente em discussão o uso político da máquina administrativa estadual.
10. Cícero para Lucas: Granja Santana virou comitê de campanha
Cícero também acusou o governador de utilizar a Granja Santana, residência oficial do chefe do Executivo paraibano, para articulações eleitorais.
Na avaliação apresentada pelo candidato do MDB durante o debate, Lucas teria transformado a residência oficial numa espécie de comitê de campanha.
11. Cícero para Lucas: problemas de saneamento e abastecimento
O candidato do MDB apontou deficiências nos serviços de saneamento e abastecimento de água e responsabilizou a administração estadual.
“A resposta será dada nas urnas”, afirmou.
12. Efraim para Lucas: avanço das facções criminosas
A segurança pública produziu alguns dos confrontos mais duros. Efraim questionou Lucas sobre a expansão das facções criminosas e colocou em dúvida a efetividade das ações realizadas pelo Governo do Estado.
13. Efraim para Lucas: furto até em evento governista
Efraim utilizou um episódio de furto ocorrido durante evento partidário no Centro de Convenções para atacar a política de segurança do governo.
O caso foi usado pelo senador para confrontar o discurso governista sobre os investimentos realizados na área.
14. Lucas para Efraim: não mandou recursos para a segurança
Lucas reagiu questionando a atuação parlamentar de Efraim e afirmou que o senador não teria destinado recursos para a segurança pública estadual.
Efraim contestou e disse ter destinado mais de R$ 10 milhões para a área.
15. Lucas para Efraim: “Não recebemos esse seu recurso”
Mesmo depois de Efraim enumerar recursos que afirmou ter destinado à segurança, Lucas manteve a contestação.
“Mais uma vez, não recebemos esse seu recurso”, disse o governador.
16. Efraim para Lucas: 73 municípios sem atendimento especializado
Efraim apontou o que classificou como vazio na política de proteção às mulheres e afirmou que 73 municípios paraibanos não dispõem de unidades especializadas para esse atendimento.
17. Efraim para Lucas: insegurança e salários das polícias
O candidato do PL citou municípios como Bayeux, Cabedelo e Santa Rita para sustentar que existe sentimento de insegurança entre a população e também criticou a política salarial destinada às forças policiais.
“Trégua com facção não se faz, não tem aliança com o crime organizado”, declarou.
18. Lucas para Efraim: desconhece a administração estadual
Lucas rebateu afirmando que Efraim desconhece a dinâmica do Poder Executivo e o funcionamento regionalizado das delegacias especializadas.
O governador sustentou que o adversário fazia críticas sem conhecer a estrutura administrativa da segurança pública estadual.
19. Efraim para Lucas: “Ele se complicou todo”
Na discussão sobre o funcionamento das delegacias especializadas, Efraim voltou ao ataque.
“Ele se complicou todo, porque delegacia especializada não recebe boletim de ocorrência”, afirmou.
Efraim também criticou os gastos estaduais com aluguel de imóveis utilizados pela estrutura policial.
20. Efraim para Lucas: acusação envolvendo Cagepa e abastecimento de Campina Grande
Efraim fez uma acusação grave envolvendo a Cagepa e o sistema responsável pelo abastecimento de Campina Grande.
Segundo a acusação feita pelo candidato do PL durante o debate, a companhia estaria despejando água no açude que integra o sistema de abastecimento da cidade.
Efraim afirmou ainda que o prefeito Bruno Cunha Lima ingressaria com uma representação no Ministério Público para responsabilizar o governador pelo episódio.
21. Efraim para Lucas: estaria escondendo o sobrenome Ribeiro
Efraim levou o confronto para o campo familiar ao acusar Lucas de tentar esconder o sobrenome Ribeiro durante a campanha.
Segundo o candidato do PL, Lucas evitaria enfatizar o sobrenome para não ser associado ao tio, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro, cuja trajetória política já foi alvo de acusações e investigações.
A provocação buscou atingir Lucas por meio da vinculação política e familiar com o parlamentar.
22. Lucas para Efraim: ligação com pessoas citadas no caso do INSS
Lucas respondeu com uma das acusações mais pesadas dirigidas a Efraim durante o debate, associando o senador a pessoas citadas em investigação da Polícia Federal relacionada a irregularidades no INSS.
23. Lucas para Cícero: “Durmo tranquilo” sem esperar a Polícia Federal às cinco da manhã
Um dos golpes mais duros da noite ficou para o final.
Dirigindo-se a Cícero, Lucas afirmou que dormia tranquilo sem a preocupação de receber uma operação da Polícia Federal de madrugada.
“Eu durmo tranquilo, sem a preocupação de que a Polícia Federal vai bater na minha porta às cinco da manhã”, disparou.
A declaração provocou forte reação de Cícero. O candidato do MDB demonstrou revolta, mas já não havia tempo para responder à acusação, porque o debate estava chegando ao fim.
Cícero e Efraim não se atacaram
A relação dos 23 ataques deixa uma característica do debate ainda mais evidente: em meio a toda a pancadaria, Cícero e Efraim não trocaram ataques diretos.
Quando estiveram frente a frente, os dois candidatos de oposição evitaram transformar um ao outro em alvo. A artilharia foi direcionada prioritariamente a Lucas.
A estratégia tem uma explicação política. Lucas lidera as pesquisas, enquanto Cícero e Efraim travam uma disputa ainda aberta pela possibilidade de chegar ao segundo turno contra o governador. Atacar quem está na frente, portanto, interessa aos dois.
Lucas, por sua vez, não ficou apenas na defensiva. Contra Cícero, explorou principalmente a passagem do adversário pela Prefeitura de João Pessoa e terminou com a provocação envolvendo a Polícia Federal. Contra Efraim, questionou sua atuação parlamentar, seu conhecimento da administração estadual e suas relações políticas.
Foi essa configuração que marcou o segundo debate: três candidatos no estúdio e muita pancadaria, mas nenhuma entre os dois principais candidatos de oposição. Cícero e Efraim miraram Lucas. E Lucas devolveu os golpes para os dois lados.
