Quatro meses depois de Cabedelo ganhar repercussão nacional com uma reportagem do Fantástico sobre a infiltração do crime organizado em estruturas do poder público, outro município importante da Grande João Pessoa entra no radar das autoridades. Desta vez, Bayeux aparece no centro de uma investigação que revela a dimensão preocupante da atuação de grupos criminosos na região.
A Polícia Civil da Paraíba e o Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público da Paraíba, deflagraram nesta terça-feira (22) a Operação Feudo, que investiga uma organização criminosa suspeita de expulsar mais de 250 famílias de suas casas por meio de ações consideradas ultraviolentas pelas autoridades.
Segundo as investigações, depois da expulsão das famílias, os imóveis eram ocupados por integrantes da própria organização. Móveis e outros bens deixados nas residências também teriam sido apropriados pelo grupo, saqueados ou comercializados.
A operação apura ainda um suposto esquema de agiotagem associado à tomada irregular de imóveis, além de suspeitas de extorsão, tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Movimentações financeiras realizadas por meio de Pix estão entre os elementos analisados pelos investigadores.
O caso ganhou também uma dimensão política após a secretária municipal de Assistência Social de Bayeux, Ivoneide de Araújo Silva, ser citada no contexto da investigação. A Prefeitura divulgou nota afirmando ter recebido as informações com “serenidade”, defendeu a presunção de inocência e disse confiar no trabalho das autoridades. A gestão também repudiou o que classificou como tentativa de exploração política do episódio.
As situações de Bayeux e Cabedelo não podem ser tratadas como casos idênticos. As investigações têm objetos, personagens e circunstâncias diferentes. Mas a sucessão de episódios envolvendo suspeitas de aproximação entre organizações criminosas e estruturas municipais acende um sinal de preocupação para a Paraíba.
O precedente de Cabedelo
Em maio, Cabedelo foi destaque durante cerca de dez minutos no Fantástico, da TV Globo. A reportagem mostrou investigações segundo as quais integrantes do Comando Vermelho, a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, conseguiam monitorar ruas da cidade paraibana por meio de câmeras clandestinas.
O caso era ainda mais grave porque, segundo as investigações apresentadas pelo programa, a influência criminosa teria ultrapassado as ruas e alcançado estruturas da administração municipal, com suspeitas de loteamento de cargos, “rachadinhas” e desvios de recursos públicos.
A investigação em Cabedelo já havia provocado fortes consequências políticas. Edvaldo Neto foi afastado do cargo apenas dois dias depois de vencer a eleição suplementar, enquanto seu antecessor, André Coutinho, também havia deixado o comando da prefeitura em meio a investigações relacionadas à atuação de facções. As defesas dos investigados negaram envolvimento com o crime organizado.
Um alerta que ultrapassa os dois municípios
Agora, o aparecimento de Bayeux em uma investigação dessa dimensão recoloca uma questão que merece atenção das instituições paraibanas: até onde as organizações criminosas estão tentando avançar sobre estruturas formais do poder público?
Não se trata de antecipar culpa de gestores, secretários ou servidores citados em investigações. Isso cabe à polícia, ao Ministério Público e à Justiça. O ponto de preocupação é outro: organizações criminosas já não aparecem apenas associadas ao domínio territorial, ao tráfico de drogas ou à disputa armada por comunidades. Investigações recentes levantam suspeitas de aproximação com cargos, serviços públicos e estruturas administrativas.
Cabedelo mostrou à Paraíba, com repercussão nacional, até onde essa infiltração pode chegar quando não é interrompida. O caso de Bayeux ainda está sendo esclarecido e precisa respeitar o devido processo legal. Mas, poucos meses depois do que se viu em Cabedelo, é um novo sinal de alerta que não pode ser tratado como um episódio qualquer.
Mais do que um problema policial, a eventual infiltração do crime organizado em estruturas públicas representa uma ameaça às próprias instituições. E esse é um assunto que a Paraíba precisa acompanhar com atenção.
