Apesar do discurso oficial de estabilidade econômica e controle da inflação, há uma crise política latente na Argentina — embora muitos tentem fingir que ela não existe. Essa é a principal análise do jornalista Eduardo Van Der Kooy, em artigo publicado neste domingo (20) pelo jornal argentino Clarín, sob o título “Hay una crisis, aunque se finja demencia” (“Há uma crise, embora se finja demência”).
Van Der Kooy divide a atual conjuntura argentina em dois planos distintos: o primeiro, dominado pelos esforços do presidente Javier Milei e do ministro da Economia, Luis Caputo, para controlar a macroeconomia e segurar a inflação; o segundo, permeado por turbulências políticas — divisões internas, disputas de poder e improvisações — às quais a sociedade, segundo o autor, parece não prestar atenção, como se fingisse demência coletiva.
Ruptura com a vice e crise no círculo íntimo
O colunista destaca a ruptura institucional entre Milei e sua vice, Victoria Villarruel, agravada após a votação no Senado que aprovou aumentos para aposentados e medidas em prol de pessoas com deficiência — decisões que contrariaram o governo. Milei chegou a chamar Villarruel de “traidora”, enquanto ela retrucou com críticas à gastança em viagens internacionais e ao orçamento secreto da inteligência estatal.
Essa tensão seria apenas a ponta do iceberg, segundo Van Der Kooy. Há ainda disputas dentro do chamado “Triângulo de Ferro”, núcleo de poder formado por Karina Milei, irmã do presidente; Santiago Caputo, estrategista do governo; e, agora, possivelmente, Patricia Bullrich, ministra da Segurança, que aparece como possível nova figura de peso para enfraquecer Villarruel.
Falta de articulação política e fragilidade institucional
O texto também aborda a dificuldade do governo em articular com governadores aliados, essencial para sustentar vetos presidenciais a projetos aprovados no Senado. A fragilidade parlamentar e territorial do governo libertário, que não tem base sólida no interior do país, agrava a situação. Divergências sobre listas eleitorais nas províncias e desentendimentos com prefeitos aliados também compõem o cenário de instabilidade.
Karina Milei, segundo Van Der Kooy, atua com mão de ferro e enfrenta resistências inclusive dentro da coalizão com o PRO. Na cidade de Buenos Aires, há tensões com o prefeito Jorge Macri e dificuldades em construir uma lista comum para as eleições legislativas. Em outras províncias, prefeitos abandonaram acordos por se sentirem sufocados politicamente pelos libertários.
Conclusão: uma crise em evolução
Van Der Kooy conclui que a Argentina vive uma crise política real, progressiva e negada pelo próprio governo, que finge que a política pode ser separada da economia. No entanto, os problemas internos — sejam eles pessoais, institucionais ou territoriais — tendem a enfraquecer o projeto de Milei, que ainda conta com respaldo em setores do mercado, mas não apresenta solidez institucional.
A ausência de uma alternativa clara na oposição e o foco exclusivo do governo em metas macroeconômicas deixam o país em um estado de incerteza, à espera de um desfecho que ainda parece distante, mas inevitável

