A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos entrou em nova fase após relatos de que empresários brasileiros foram informados, em conversas reservadas com integrantes do Departamento de Estado, de que Washington pode ampliar a pressão caso o impasse sobre a indicação de Daniel Perez para a Embaixada dos EUA em Brasília não seja resolvido.
Segundo representantes do setor privado, a mensagem transmitida pelo governo de Donald Trump é de que novas medidas podem ser adotadas se o Brasil continuar sem conceder o agrément, etapa formal necessária para a aceitação de um embaixador estrangeiro.
A tensão aumentou após a revogação do visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Embora não tenha sido expulsa, a diplomata ficou impedida de retornar aos Estados Unidos caso deixe o país, o que foi interpretado como um gesto de pressão direta sobre Brasília.
Escalada e risco de novas sanções
Ainda não há definição sobre os próximos passos de Washington, mas diplomatas e empresários citam a possibilidade de novas restrições a autoridades brasileiras, incluindo o cancelamento de vistos e eventual retomada de sanções sob a Lei Magnitsky contra integrantes do Supremo Tribunal Federal.
O ministro Alexandre de Moraes já foi alvo desse tipo de sanção no passado, posteriormente revertida. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem defendido publicamente a reativação dessas medidas.
A pressão pode se intensificar com o avanço, no Senado dos EUA, das indicações diplomáticas feitas pela Casa Branca. Entre elas está a de Daniel Perez, cuja eventual aprovação pelo Congresso americano ampliaria o contraste com a ausência de aval brasileiro para sua nomeação em Brasília.
Impasse diplomático com o Brasil
O governo brasileiro tem resistido a conceder o agrément. Em Brasília, a avaliação é de que Washington rompeu uma prática tradicional ao divulgar o nome do indicado antes da manifestação formal do país anfitrião.
Outro fator de preocupação é o perfil político de Perez, associado a setores mais conservadores do trumpismo, em um momento de sensibilidade política no Brasil em razão do ciclo eleitoral.
A relação bilateral já havia sofrido desgaste em julho, quando o Itamaraty negou vistos a dois funcionários americanos. O governo brasileiro alegou que a visita teria caráter político e buscaria questionar a integridade do processo eleitoral, versão contestada por Washington.
Apesar do agravamento do cenário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sinalizado disposição para buscar uma saída diplomática e, segundo aliados, avalia a possibilidade de contato direto com Donald Trump.
Impacto econômico e preocupação empresarial
No setor privado, a avaliação é de que o impasse político já afeta o ambiente econômico. Embora não haja ruptura comercial, empresários afirmam que as tensões dificultam avanços nas negociações para redução de tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Atualmente, parte das exportações do Brasil enfrenta sobretaxa de 37,5% no mercado americano, o que eleva custos e reduz competitividade de setores dependentes desse destino.
A preocupação agora é que a disputa diplomática evolua para um ciclo mais amplo de deterioração, com efeitos diretos sobre o comércio bilateral.
Para empresários que acompanham as tratativas, o alerta transmitido por autoridades americanas é claro: caso o impasse em torno de Daniel Perez persista, Washington está disposto a intensificar a pressão sobre o governo brasileiro.

