João Pessoa, quarta-feira, 16 de setembro de 2026
COP-30: o que realmente ficou do encontro histórico em Belém
23/11/2025 05:24
Redação ON Reprodução

Um balanço completo das decisões, frustrações, avanços e bastidores da conferência

A COP-30 terminou em Belém com o sentimento de que o mundo saiu da Amazônia ciente da urgência climática — mas ainda sem a coragem política necessária para entregar compromissos proporcionais ao tamanho da crise. Depois de duas semanas de negociações tensas, horas de plenárias interrompidas e intervenções dramáticas de países insatisfeitos, os delegados conseguiram aprovar o documento político final, batizado de “Decisão do Mutirão”. Ele reúne os consensos possíveis em temas centrais como financiamento climático, transparência nas emissões, ambição das metas nacionais e regras de comércio ligadas ao meio ambiente.

O que o documento final traz — e, sobretudo, o que 

não

 traz

A “Decisão do Mutirão” evita o principal debate que o Brasil tentou pautar desde o primeiro dia: a elaboração de um plano global para a eliminação gradual dos combustíveis fósseis. O texto apenas reafirma compromissos já assumidos desde a COP-28, em Dubai, onde o mundo concordou com a ideia genérica de uma “transição energética” rumo às emissões líquidas zero até 2050. Sem metas, prazos vinculantes ou mecanismos obrigatórios, o Brasil saiu derrotado nesse ponto.

Também não entrou no documento qualquer compromisso concreto para zerar o desmatamento das florestas tropicais, tema que deveria ser o símbolo da conferência realizada no coração da Amazônia. O texto limita-se a destacar “a importância de conservar a natureza”, sem mencionar metas, cronogramas ou instrumentos de cobrança. Cientistas que lotaram os painéis da COP mostraram modelos, gráficos, alertas e estudos sobre a degradação da Amazônia, mas a pressão não se traduziu em compromissos.

A criação do Acelerador Global de Implementação

Uma das novidades é o chamado “Acelerador Global de Implementação”: um mecanismo voluntário, pensado para facilitar a adoção de políticas climáticas alinhadas ao Acordo de Paris. É uma ferramenta colaborativa, sem caráter punitivo, que estimula países a cumprir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C. Na prática, é mais um instrumento de incentivo do que uma engrenagem capaz de virar o jogo climático.

Transparência, comércio e disputas adiadas

Outro tema sensível tratado no texto é a relação entre clima e comércio internacional. A decisão reconhece que medidas ambientais não podem ser usadas como barreiras comerciais disfarçadas, um recado claro à União Europeia e ao mecanismo de ajuste de carbono na fronteira (CBAM). Mas, apesar do tom diplomático, os detalhes desse debate ficaram para depois: qualquer negociação mais profunda foi empurrada para junho de 2026.

O embate dos Indicadores Globais de Adaptação

A COP-30 aprovou também os Indicadores Globais de Adaptação, que permitirão medir o esforço dos países para enfrentar os impactos já inevitáveis do aquecimento. O pacote original tinha nove mil itens; a versão final foi reduzida a 58. Mesmo assim, enfrentou forte resistência na plenária final.

Os países insistiram que os indicadores precisam ser voluntários, não prescritivos e, principalmente, não podem virar condição para que nações pobres acessem financiamento climático. A Colômbia chegou a bloquear a plenária, forçando uma suspensão temporária. Depois de conversas nos bastidores, o texto passou, mas com a promessa de que ajustes serão feitos nos próximos meses.

Financiamento: avanço tímido e frustração evidente

Se há um ponto considerado legado da conferência, segundo André Correa do Lago, presidente da COP-30, é o financiamento. O documento conclama os países desenvolvidos a triplicar os recursos destinados à adaptação até 2035 — prazo que, originalmente, seria 2030. Países emergentes consideraram o adiamento um retrocesso, mas concordaram com o texto para evitar o colapso da conferência.

Ana Toni, CEO da COP-30, destacou que houve mobilização paralela de governos subnacionais, setor privado e sociedade civil, com anúncios de parcerias e programas independentes das negociações formais. É um movimento crescente nas COPs: enquanto os governos internacionais avançam lentamente, cidades, estados e empresas mostram disposição maior para agir.

Belém à frente: dois “mapas do caminho” para 2026

Mesmo sem vitória no texto final, o presidente da COP, André do Lago, afirmou que trabalhará, ao longo do seu mandato, na construção de dois grandes acordos: um para o fim da era fóssil e outro para o desmatamento zero. Esses documentos, segundo ele, serão prioridade até a próxima conferência.

Bastidores e falas que marcaram o encerramento

Marina Silva, ministra do Meio Ambiente, fez talvez o discurso mais simbólico da plenária final. Comparou a jornada atual com a ambição original da Rio-92 e lembrou que, mesmo com falhas e contradições, a humanidade continua tentando. Foi ovacionada.

Simon Stiell, da ONU, classificou a COP-30 como um encontro realizado “em águas políticas turbulentas”, mas elogiou o esforço coletivo que impediu o retrocesso total nas negociações.

Organizações ambientais, por outro lado, viram ambiguidade no resultado. Para especialistas como Fernanda Bortolotto, da TNC Brasil, a ausência de planos detalhados para fósseis e florestas mostra que o mundo ainda está distante das ações necessárias para evitar o colapso climático. O reconhecimento científico e a criação de um grupo de trabalho sobre financiamento são avanços — mas insuficientes para o momento.

A participação popular: Belém viveu a COP

Nos números, a COP-30 foi gigante.

A Blue Zone, onde ocorrem as negociações diplomáticas, recebeu 42 mil pessoas durante o evento. No pico, 23 mil circularam simultaneamente. Já a Green Zone, aberta ao público, movimentou quase 300 mil visitantes. Belém se transformou em palco de debates, exposições e manifestações culturais que mostraram ao mundo a complexidade amazônica.

O balanço final

A COP-30 deixa Belém com um sabor agridoce: não houve retrocessos graves, mas também não houve os saltos esperados para um encontro sediado no coração da maior floresta tropical do planeta. O mundo saiu informado, atento e — em certa medida — mobilizado. Falta transformar essa energia em decisões capazes de mexer no eixo real do problema: fósseis, desmatamento e financiamento.

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