Votum Fractum
06/03/2026

A honra oficial

Guardo até hoje o primeiro livro da minha biblioteca. Biblioteca é palavra grande; na época eram apenas dois volumes — mas, como acontece com certas coisas da vida, bastaram para fundar um destino.

Hoje esses livros já não são apenas meus. Estão, de certo modo, repartidos entre a minha cidade, a escola que me formou advogado e o seminário católico da Paraíba. A origem, entretanto, foi simples: uma espécie de doação tácita do Sr. Antônio Leite.

Eu era menino e frequentava a prefeitura de Jatobá com um propósito pouco municipal: ler dois pesados volumes de A Segunda Guerra Mundial, de Raymond Cartier. Pedia licença, sentava-me e lia. O secretário observava aquele ritual com a curiosidade reservada que os adultos costumam dispensar às manias das crianças.

Uma tarde, já quase noite, ele resolveu simplificar a situação.

— Por que você não leva os livros para casa?

Levei.

Disse-lhe várias vezes que os devolveria. Até que ele resolveu liquidar o assunto:

— Com você, eles estão seguros. Se alguém reclamar aqui, eu peço de volta.

Nunca pediu.

Esses volumes são, para mim, uma espécie de relíquia doméstica. Lembram-me sempre aquele exemplar perdido da Poética de Aristóteles que Umberto Eco transformou em peça de enigma em O Nome da Rosa.

Hoje os tenho digitalizados — o que, como todos sabem, é a forma moderna de possuir as coisas sem tocá-las.

Guardo também uma lembrança de leitura que nunca tive coragem de verificar. Talvez porque certas memórias da infância devam permanecer no estado de suspeita em que nasceram.

Creio ter lido ali um episódio curioso: uma filha de Mussolini procurando Hitler para pedir autorização para trocar liras italianas por dólares americanos e, assim, preparar discretamente uma fuga.

Hitler teria respondido:

— Se a senhora tem a petulância de chegar até mim com tal proposta, então tudo abaixo já está apodrecido.

A frase é brutal, mas pedagógica.

Ela deve ter percebido naquele instante o tamanho do monstro que tinha diante de si — e saiu sem insistir.

Ora, eu havia feito uma promessa bastante modesta: não publicar nada nas redes sociais durante a Quaresma. Promessa de pouca monta, como se vê, mas ainda assim promessa.

Ontem à noite cogitei quebrá-la.

Imaginei que, pela manhã, seria despertado com a notícia da prisão dos senhores Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

Não aconteceu.

E como certas esperanças frustradas também têm direito a um gesto simbólico, resolvi converter o voto quebrado em ex-voto.

Faço-o com a serenidade possível.

Porque o Brasil oficial está — como, aliás, tem estado com certa regularidade histórica: oficialmente apodrecido.

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