Pesquisa conduzida pela Unesp analisou grupo de 1.018 pacientes do SUS e mostrou que, quando tratadas com regimes simplificados de terapia antirretroviral, pessoas com 50 anos ou mais com HIV alcançaram melhores resultados clínicos e qualidade de vida
Testagem rápida para HIV em SP — Marcelo Camargo/Ag. Brasil
Um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp, em parceria com o Center for Global Health, da Georgetown University, nos Estados Unidos, mostrou que pessoas com 50 anos ou mais com HIV têm alcançado melhores resultados clínicos e qualidade de vida quando tratadas com regimes simplificados de terapia antirretroviral (TARV). Os resultados da pesquisa serão publicados na revista científica Brazilian Journal of Medical and Biological Research. O HIV é o vírus causador da Aids, doença que afeta 40 milhões de pessoas no mundo.
A pesquisa analisou 1.018 pacientes atendidos no Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2020 e 2023. O grupo com idade mais avançada, de 50 anos ou mais, representou 56,6% da amostra total, enquanto os mais jovens (18 a 49 anos), 43,4%. De acordo com os resultados do estudo, praticamente 90% do grupo 50+ apresentaram carga viral indetectável, frente a 83,3% dos mais jovens, e uma taxa de falha virológica (quando o vírus volta a se multiplicar no sangue) quatro vezes menor (2,5% vs. 10,1%).
Os 50+ também mostraram melhor recuperação imunológica, medida pela contagem de linfócitos T CD4, células essenciais para a defesa do organismo e alvos diretos do HIV. Apenas 7% dos pacientes acima de 50 anos tinham menos de 350 células/mm³, contra 13,3% dos mais jovens, indicando resposta imunológica mais robusta e menor vulnerabilidade a infecções. “A variável que mais se associou a esses resultados foi, justamente, o regime simplificado de medicação”, comentaram os autores.
Os dados utilizados pelo estudo foram obtidos no Serviço de Atendimento Especializado em Infectologia Domingos Alves Meira (SAEI-DAM), da Faculdade de Medicina do câmpus de Botucatu da Unesp, um centro de referência que acompanha há mais de duas décadas pessoas vivendo com HIV. Os medicamentos antirretrovirais, introduzidos a partir de 1996 pelo Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, asseguraram a longevidade da primeira geração de pessoas vivendo com HIV, lançando desafios que gravitam em torno do cuidado com a saúde das pessoas que estão envelhecendo com o vírus.
A pesquisa adotou o marco de 50 anos para definir os “adultos mais velhos vivendo com HIV”. Isso porque, mesmo sob tratamento eficaz, o HIV mantém o corpo em um estado contínuo de inflamação e ativação imunológica, levando a um desgaste precoce do sistema imune e favorecendo o surgimento antecipado de doenças crônicas, como hipertensão, diabetes e problemas cardiovasculares. O uso prolongado de antirretrovirais e o risco de interações entre medicamentos também contribuem para esse envelhecimento celular acelerado. Assim, uma pessoa com HIV aos 50 anos costuma ter um perfil clínico, em termos de comorbidades, semelhante ao da população em geral dez anos mais velha. Esse critério é aceito globalmente pela comunidade científica.
Os pesquisadores estudaram os efeitos de duas combinações de regimes de TARV simplificados: lamivudina + dolutegravir (3TC+DTG) e lamivudina + darunavir/ritonavir (3TC+DRV/r), utilizadas com maior frequência pelos pacientes mais velhos. A análise dos resultados revelou que o uso desses esquemas e o tempo prolongado de tratamento — acima de 11 anos — estiveram fortemente associados à supressão viral sustentada, quando o vírus permanece indetectável de forma contínua.
A lamivudina (3TC) atua bloqueando a enzima transcriptase reversa, responsável por converter o RNA do vírus causador da Aids em DNA dentro da célula humana — etapa fundamental para que o invasor se replique. Ao ocupar o lugar de uma base do DNA, a lamivudina interrompe a cópia do material genético viral e impede a formação de novas partículas do vírus. O dolutegravir (DTG) age em outro ponto do ciclo: ele inibe a enzima integrase, que o vírus utiliza para “colar” o seu DNA ao código genético da célula hospedeira. Sem essa integração, o vírus HIV não consegue se multiplicar nem produzir novas cópias de si mesmo.
A mudança mais marcante em relação ao tratamento tradicional está na retirada do tenofovir (TDF), um dos pilares históricos da terapia antirretroviral (TARV) no Brasil desde o final dos anos 1990. O tenofovir, assim como a lamivudina, bloqueia a enzima transcriptase reversa, impedindo o vírus de copiar seu RNA em DNA — um passo essencial para que o HIV se multiplique. O remédio continua essencial para pessoas recém-diagnosticadas, que precisam reduzir rapidamente a carga viral, e para casos em que há resistência a outros fármacos. Mas, com o uso prolongado, o tenofovir pode causar efeitos renais e ósseos, o que preocupa especialmente pacientes com mais de 50 anos.
“O vírus HIV, antes associado a pessoas jovens, tornou-se uma condição crônica que exige um olhar geriátrico. O envelhecimento da epidemia já altera o perfil dos atendimentos: as pessoas fazem acompanhamento há muitos anos, mantêm adesão ao tratamento e convivem com outras doenças associadas à idade, como hipertensão, diabetes e aterosclerose, que surgem mais cedo devido a um estado de inflamação crônica provocado pela infecção, mesmo controlada”, afirma o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Faculdade de Medicina do câmpus de Botucatu (FMB/Unesp), chefe do Departamento de Infectologia e médico de referência em genotipagem do HIV do Ministério da Saúde.