João Pessoa, sexta-feira, 4 de setembro de 2026
Violência psicológica é a forma de abuso que mais demora para ser reconhecida
03/09/2026

A violência psicológica contra a mulher voltou ao centro do debate público no ano em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que o Brasil registrou 60.830 casos de violência psicológica em 2025, alta de 16,9% em relação ao ano anterior. Especialistas alertam, no entanto, que os registros representam apenas parte da realidade, já que esse tipo de violência costuma permanecer invisível durante meses ou até anos antes de ser identificado pela vítima.

Para Elainne Ourives, treinadora mental, psicanalista, cientista e pesquisadora nas áreas da Física Quântica, Neurociências e reprogramação mental, a principal dificuldade está no fato de que a violência psicológica raramente começa de maneira explícita. “A manipulação emocional quase nunca chega como agressão. Ela começa como excesso de cuidado, proteção ou preocupação. Aos poucos, a mulher passa a questionar a própria percepção da realidade e acredita que o problema está nela, não no comportamento do parceiro”, afirma.

Segundo a 11ª Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado em 2025 com mais de 21 mil brasileiras, 34% das entrevistadas afirmaram ter vivenciado pelo menos uma situação de violência nos últimos 12 meses. O levantamento também mostra que 79% acreditam que a violência contra as mulheres aumentou no país, evidenciando que o problema permanece entre as principais preocupações sociais.

A violência psicológica quase sempre começa de forma imperceptível

Ao contrário da violência física, a violência psicológica costuma ser construída por meio de comportamentos repetitivos, como críticas constantes, isolamento social, chantagem emocional, controle financeiro, humilhações, inversão de culpa e manipulação da autoestima.

Segundo a psicanalista, esse processo modifica gradualmente a forma como a vítima interpreta a própria realidade. “A pessoa deixa de confiar na própria percepção. Ela passa a pedir autorização para decisões simples, sente culpa por estabelecer limites e acredita que qualquer conflito é consequência dos próprios erros. Quando isso acontece, a dependência emocional já está instalada”, explica.

A especialista destaca que uma das estratégias mais frequentes em relações abusivas é fazer com que a mulher perca sua autonomia emocional antes mesmo de perceber que está sendo controlada. “Quem manipula emocionalmente procura reduzir a confiança da vítima em si mesma. Quando ela deixa de acreditar na própria capacidade de decidir, torna-se muito mais fácil aceitar comportamentos que antes seriam considerados inaceitáveis”, ressalta.

Dependência emocional dificulta o rompimento

Embora muitas pessoas questionem por que uma mulher permanece em um relacionamento abusivo, especialistas afirmam que essa decisão envolve fatores emocionais muito mais complexos do que simplesmente escolher ir embora.

Para Elainne, a manipulação emocional altera a percepção de identidade e fortalece vínculos de dependência psicológica. “A violência psicológica cria um ciclo de recompensa e punição. Depois de momentos de humilhação vêm pedidos de desculpas, demonstrações de carinho e promessas de mudança. O cérebro passa a viver esperando que a relação volte a ser como era no início, e isso mantém a vítima presa ao relacionamento”, explica.

Ela acrescenta que esse mecanismo costuma provocar ansiedade, insegurança, medo constante de desagradar e perda progressiva da autoestima. “Quando alguém acredita que não é suficiente, começa a aceitar situações que jamais aceitaria se mantivesse sua identidade preservada. O agressor não controla apenas comportamentos. Ele tenta controlar a maneira como essa mulher enxerga a si mesma”, afirma.

Os sinais costumam aparecer antes das agressões mais graves

Entre os principais indícios de violência psicológica estão o afastamento de familiares e amigos, o medo constante de contrariar o parceiro, a necessidade de justificar todas as decisões, a sensação permanente de culpa, o controle sobre roupas, rotina, dinheiro ou redes sociais e a perda gradual da autoestima.

Segundo a psicanalista, reconhecer esses sinais precocemente pode impedir que o relacionamento evolua para outras formas de violência. “A violência psicológica raramente permanece isolada. Quando não é interrompida, ela pode abrir caminho para agressões patrimoniais, morais, físicas e até para o feminicídio. Por isso é tão importante reconhecer os primeiros sinais”, observa.

Recuperar a autoestima também faz parte do processo

Além da proteção jurídica e da rede de apoio, a reconstrução emocional é considerada uma etapa fundamental para mulheres que deixam relações abusivas.

Para a especialista, recuperar a confiança na própria percepção representa um dos passos mais importantes para romper definitivamente o ciclo da violência psicológica. “O processo de reconstrução começa quando a mulher volta a confiar em si. Recuperar autoestima, autonomia emocional e clareza sobre quem ela é permite que novas relações sejam construídas a partir do respeito, e não do medo. A verdadeira liberdade acontece quando ela deixa de acreditar na narrativa criada pelo agressor e volta a reconhecer o próprio valor”, conclui Elainne Ourives.

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