sábado, 21 de fevereiro de 2026
Uma crônica de Nathan
21/02/2026

Abro espaço para homenagear o jornalista Nathanael Alves (1934-1981), um amigo que é saudade. 

Ele abriu as portas das redações dos jornais para mim e muitos jovens que se encantavam com o mundo das notícias e as paisagens das letras. 

O texto a seguir, publicado no dia 23 de agosto de 1953, foi um dos primeiros que Nathanael Alves publicou em jornal. 

Desde o primeiro momento, se mostrava um cronista de fina sensibilidade, preocupado com a condição humana. 

Estava com 19 anos e morava no Abrigo São José, do padre José Coutinho. Neste mês estaria completando noventa anos.

“SANTA FÉ

Nathanael Alves

Quem vai pela estrada, rumo ao norte, deixa Arara atrás e passa em Santa Fé. Três ou quatro casas e um convento velho, é a sua povoação lendária, talvez lendária.

Situada em uma chã, nunca deixou de deixou de oferecer ao turista, um largo panorama de doce contemplação e uma inspiração, talvez.

Quando a tarde morre, tocam-na ainda os últimos raios de sol, descobrindo-lhe, parece, a velha monotonia, mascarada de paredes sujas e um pouco de saudade do velho Ibiapina.

Um cruzeiro à beira da estrada e uma capela dentro do muro, são os marcos da Fé.

Não polindo a descrição, aí tudo está descrito.

Velha terra, de velhos tempos, parece uma recordação inacabada, uma muralha romana, erguendo o para o porvir, o derradeiro olhar de tradição e um adeus, talvez aos últimos visitantes.

Ali, fui conduzido quando infante. Parece que ainda vejo uma velha comigo aos braços e um frasco de leite para mim. Que ainda ouço o meu prato de ingenuidade, ecoando pelo caminho, gravado que ficou para despertar saudades.

Mas, aí! Que embalo terno, ilusões constantes.

Tudo se desterrara na bruma fria dos tempos, levando o meu chorar de criança, deixando-me apenas uma eterna desilusão e uma lembrança imorredoura, no coração.

Hoje, ali somente existe um pouco de beleza e muita melancolia; um pouco de oração e muita piedade! Somente.

E como poderia existir encanto, se a vaidade arranca-lhe o esplendor das alvoradas, deixando-a na escuridão, se a noite descer?

Santa Fé parece morta, no meio das árvores esparsas ou agonizantes a bater somente o coração!

As pegadas de Ibiapina estão cobertas de poeira. Mas, ali seu túmulo parece um grande marco, apontando para o céu o itinerário das almas santas!

Quem passa em sua frente, fita o Leste e vê a imensidão; fita o Oeste – avista-a solitária; fita o Norte – duas gameleiras; fita o Sul e vê Arara.

E quem fita tudo, ao mesmo tempo, vê um pedaço de terra e solidão. Uma imagem do passado e uma imaginação do futuro. Eis Santa Fé.

Quanto talvez, só lhe restarem as ruinas, resta-lhe ainda uma legenda: – aqui viveu gente boa.

E aquela boa gente, hoje resumida a quase uma dezena de velhas, espera as últimas visões do tempo, projetadas de vindouros tempos, na muralha branca… e boa morte!

Depois dessa fase de vida ou de sepulcro, que irão fazer de Santa Fé, naquela paz melodiosa de terra e de paisagem! Que farão daquela cruz à beira da estrada? E aquele túmulo ficará mirando os séculos? Ninguém sabe o fim das coisas; sabe apenas que as coisas terão fim.

Paisagem merencório, é de qualquer maneira um filme realista, em cuja tela se projetam a beleza inspiradora e um sonho de poesia, ao viajor que passa, na lentidão dos passos, contemplando esse pedaço de minha terra, onde vive esse resto de minha gente!

Jornal O Norte, 23 de agosto de 1953.”

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).