Fazia muito tempo que não conversava com Crispim, senão pelas crônicas diárias em jornal da cidade. Uma conversa modelada pela poesia das palavras ao abordar temas do cotidiano porque ele era um escultor de sonhos.
A vida estava com cada um de nós, não muito distantes, vivendo no seu canto, mas próximos pela comunicação de seus textos, a poesia das suas crônicas apontando os caminhos da cidade e nossos sonhos. As palavras e o ritmo dando vida às imagens.
Quando, inesperadamente, em uma livraria, encontro o amigo Crispim. Nas conversas amenas enquanto manuseávamos os livros em estandes, falamos das amizades que nunca nos traíram, de Nathanael Alves que há mais de três décadas tinha feito sua viagem ao mundo distante, ao mestre Gonzaga Rodrigues, pronto a recolher junto de si todas as amizades.
Presenteou-me com o livro Aurea, com uma dedicatória que ressalta a elevada estima, sincera que nos nutria.
Na minha oculta vida que as redações possibilitaram viver, encontrei gente que me fizeram conhecer a força da amizade, mas do que mereço. Crispim foi um desses que me rodearam com sua áurea colorida do saber.
Quando fazemos memória deste amigo que partiu sem se despedir, temos muitas coisas para recordar.
Entre os amigos que apontaram os meandros das redações e o gosto pela leitura e pela arte, Luiz Augusto Crispim foi um desses que muito em ensinaram sem fazer prelações, como igualmente fizeram Nathanael Alves e Gonzaga Rodrigues, mestres que me acolheram como pais.
Crispim é desses amigos e lentes do saber que caminham conosco, revelados nos gestos e nas atitudes que ajudam na construção da cidadania e na admiração pelas artes.
Nos ambientes quando estivemos juntos, seja nos mais distantes tempos da redação de O Norte, no final da década de 1970, e depois sendo ele, cronista, e eu, repórter, nos cruzávamos ocupando afazeres diferentes. Em outras ocasiões, ele administrando órgãos públicos e na presidência da Academia Paraibana de Letras, estávamos por perto. Acompanhava seu trabalho de poeta que sabia sentir a alma e do cronista que entendia as vozes da cidade.
Nos acostumamos a esperar com ansiedade, a cada manhã, sua crônica publicada no jornal O Norte e depois no Correio da Paraíba.
Em meio ao turbilhão de atividades que exerceu como professor e advogado, durante décadas, produziu assiduamente crônicas, textos de beleza estética dos melhores que comporiam a paisagem das letras da Paraíba. A crônica quase poema, uma delícia de escrita com perfeição estética.
Como poeta, Crispim fazia emergir da alma todas as emoções para revelar a força da vida e do amor. Mansamente fazia entender o sentido da vida, revelada nos pequenos gestos que se tornavam grandes.
Homem de fino trato, de bom gosto e cheio de ternura pela vida, chamava a atenção com seu porte físico, elegância no vestir e moderado nas gesticulações, e muito se destacava pela força de sua palavra.
A obra literária deste poeta e cronista, mais do que advogado e professor, é um testemunho profissional de dedicação à atividade abraçada, desses raros escritores cuidadosos com a palavra escrita.
Nos víamos em tempo salteado, mas suponho nunca perdi o lugar na amizade de Crispim.
Altamente notável pelas qualidades indispensáveis aos grandes homens de impressionante modéstia, a naturalidade de caráter era para ele uma questão de pura ética.
Carregando comigo os gestos aprendidos em Serraria e Arara, onde plantei meus roçados nas nesgas de terras que a família possuía, adolescente vindo morar em João Pessoa, Crispim vendo que eu andava como um camponês, identificou nos meus traços, os seus traços de homem da roça que gostaria de ter sido.
Lendo os recados do meu sítio, uma coletânea de conversas publicadas para adocicar meus anseios de escritor que sempre teve a visão de camponês, ele escreveu que sentia uma sadia inveja do meu jeito de falar de Tapuio, o berço onde semeei e colhi as primeiras sementes da vida.
Crispim agora é saudade, a sua memória continua viva nos seus escritos. Sempre lembraremos os gestos deste homem temente a Deus, que olhava os próximos com olhar franciscano e atitude beneditina, de orar e trabalhar.
Esse mesmo olhar franciscano que tiveram Nathanael e Gonzaga para comigo desde o final da década de 1970, sem que nunca retirasse de mim os modos camponeses de olhar as casas e as ruas e de observar as pessoas.
Um homem de fino trato
11/04/2026
sobre
José Nunes
José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).