O mito do paraíso perdido é o da infância; não há outro. Lembrei disso e lembrei bem quando hoje pela manhã conversei com minha prima Dodora de Eudes. E as conversas com Dodora são sempre muito engraçadas. Mas nossa preferência é o fuxico, o meio de comunicação mais rápido do mundo.
Dodora me contou um laço familiar de Tia Celina, a mulher de João Pinto de Sousa, avô dela. Tudo isso para falar sobre um cidadão da nossa terra. Contei a minha prima que no Curral Velho todos o chamavam de Ãinh.
Eu morava na casa dos meus pais, mas passava a maior parte do tempo no Curral Velho. Sempre fui bom em Matemática, no tempo que se aprendia pela Tabuada. Eu era uma espécie de Tesoureiro de Nino. Todas as noites ele pegava caderno e lápis e me entregava citando o nome de cada trabalhador e quanto ganhava.
Eu anotava o ganho e quanto tinha adiantado. Na sexta-feira fazia o encontro de conta e anotava ao lado quanto tinha de pagar a cada um.
Um dia Ãinh chegou na casa de Nino, de quem era irmão. Severino Pinto de Sousa e João Pinto de Sousa. Estávamos fazendo as contas e ele ficou olhando curioso.
“Você sabe fazer isso, José? Aprendeu onde?”, quis saber. Antes que eu respondesse, Nino tomou à frente e fez quase um discurso. “João, esse menino é um danado de sabido. Até colher de pau ele sabe fazer”, disse, chamando Lina para mostrar a colher de pau que eu tinha feito com tronco de Pinhão branco.
Ãinh tinha muita gente que trabalhava em suas terras na Aroeira de Baixo e pediu a Nino pra me deixar dormir na sua casa e lhe ajudar criar o seu caderno de contas. Depois, nos sábados de feira ele me chamava e me dava um dinheiro.
Nino morreu, Äinh morreu, Tia Celina morreu, todas as minhas tias e tios morreram. Não tenho mais ninguém a quem pedir a benção quando vou ao Principado de Sant’Ana do Garrote. Por isso mesmo cheguei à dolorosa conclusão de que o Tempo é um construtor de ruínas.
Né não?
