O céu só dói na memória
Soube que Zé Nilton, ex-vereador do Horebe, retornou à comunhão divina ontem, dia 11 de fevereiro. Datas, às vezes, falam. Ele era amigo de meu pai — amigo de estrada, de aperto de mão firme, de confiança sem testemunha.
Certa vez, precisando resolver um problema judicial em Brasília, procurou o velho. Meu pai não prometeu milagre. Fez o que os homens antigos faziam: escreveu um bilhete.
Começava assim:
“Meu Dr. Irapuanzinho,
Está indo para Brasília um grande amigo meu,
o qual tem dispensado uma grande atenção a mim.
Peço que você, dentro do possível, faça tudo pelo mesmo.
Para mim, uma palavra sua é uma lei cumprida.
Ajude, como se fosse comigo, este meu amigo.
Grato.
O velho pai amigo.
29/11/08.”
Ali estava tudo.
Confiança absoluta — e limite moral.
Autoridade — e prudência.
Pedido — e gratidão antecipada.
“Dentro do possível” não era fraqueza. Era ética. Meu pai sabia que há causas que não se dobram à vontade, instâncias que não se movem por amizade, decisões que já nasceram encerradas. Não exigia o impossível. Exigia postura.

Zé Nilton saiu do Horebe de carro, com meu amigo Samir, atravessou léguas até Brasília, trazendo no bolso não um contrato, mas um legado.
Quando me disse que queria pagar os honorários, mostrou antes o bilhete.
Eu li e falei: — Tá tudo acertado com o bilhete.
E compreendi que ali não estava apenas um cliente. Estava um homem confiado à minha honra.
Disse a ele que faria tudo o que estivesse ao alcance — dentro do possível. A causa já trazia decisão praticamente insuscetível de modificação. À míngua de valoração das provas, a última instância pouco se move. Ainda assim, fiz o que era devido.
Hoje ele parte.
E o que fica não é o número do processo. Não é a decisão.
O que fica é o bilhete.
Um vereador pode deixar leis.
Um homem deixa memória.
Um amigo deixa gratidão.
E um pai deixa uma frase que atravessa o tempo:
“Ajude como se fosse comigo.”
Devolvo o bilhete, via Zé Nilton
Papai,
Está chegando ao céu o seu amigo Zé Nilton.
Peço que ele seja recebido pelo senhor no esplendor da luz perpétua.
Tenho fé que a sua luz lhe indicará os caminhos.
Do seu filho,
Irapuanzinho
