quinta-feira, 3 de abril de 2025
Um ateu guiou os judeus modernos à Terra Prometida
30/03/2025

Foi-se o tempo em que Deus abria o Mar Vermelho. No século XIX, bastava um bom jornalista vienense, um diploma de direito e um ceticismo afiado para conduzir os judeus rumo à Terra Prometida.

Theodor Herzl, o pai do sionismo moderno, é essa figura curiosa: um judeu secular, declarado ateu, que decidiu que seu povo precisava urgentemente de uma pátria — não por inspiração divina, mas por puro pragmatismo europeu. A figura de Moisés tremia com as tábuas da lei nas mãos ao ver seu sucessor moderno empunhar uma pena, escrever comédias para o teatro e manifestar mais fé na diplomacia do que em qualquer milagre.

É irônico, para dizer o mínimo: o movimento que prometia “um lar para os judeus” nasceu não do Sinai, mas do café vienense, da pena de um homem que não falava hebraico, não praticava a religião e acreditava que, talvez, Deus fosse apenas um detalhe dispensável da narrativa.

Depois do caso Dreyfus — que sacudiu as ilusões francesas de igualdade — Herzl percebeu que os judeus, mesmo assimilados, ainda carregavam uma estrela invisível no peito. Mas em vez de buscar consolo nos Salmos, ele escreveu Der Judenstaat (O Estado Judeu), um panfleto secular com ambições messiânicas. Nada de esperar pelo Messias: Herzl preferia o trem para Basileia.

Ali, no Congresso Sionista de 1897, ele declarou: “Hoje fundei o Estado Judeu”. E ninguém ouviu um trovão nos céus. Deus, aparentemente, não foi convidado para a conferência.

A cereja do bolo? Herzl acreditava que, uma vez criado o tal Estado, os não-judeus deveriam ser gentilmente… removidos. Não com espadas, como nos tempos bíblicos, mas por falta de meios de subsistência. Um tipo de milagre econômico reverso. A Terra Prometida, agora com cláusulas de exclusão.

Que os antigos profetas tenham paciência: o novo Moisés era um dramaturgo, e sua peça teve consequências mais duradouras que muito salmo. No final, Herzl não viu seu sonho se realizar — morreu em 1904, sem ter posto os pés na Terra Santa. Mas como todo bom personagem bíblico, deixou uma promessa para os outros cumprirem.

E assim, guiados por um ateu que duvidava de Deus, mas não da História, os judeus modernos marcharam — não para o deserto, mas para o cenário mais conturbado do século XX. Entre os que oravam e os que não acreditavam, foi um descrente quem apontou o caminho.

Ironias divinas, ou apenas humanas?

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Miguel Lucena
Miguel Lucena

Miguel Lucena é jornalista, advogado e poeta.