A iniciativa trumpista de caracterizar facções criminosas como organizações terroristas amplia os riscos de uma escalada militar na América Latina e ameaça a soberania nacional

Enquanto os olhos da mídia e dos analistas estão voltados para a guerra entre EUA-Israel e Irã, uma ameaça furtiva voltou à cena: a proposta americana de classificar as duas maiores organizações criminosas do Brasil, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), como organizações terroristas estrangeiras(FTO, na sigla em inglês). Segundo o Departamento de Estado, as “orcrim” brasileiras deveriam ser reclassificadas pois seu envolvimento com o tráfico de drogas e de armas ameaçam a segurança regional e impactam os EUA. Será?
A narrativa de Donald Trump para classificar facções brasileiras como organizações terroristas parte de uma premissa frágil. O argumento invoca o tráfico de cocaína e o suposto papel central do Brasil no abastecimento do mercado norte-americano. Na prática, porém, essa ligação é pequena. O Brasil aparece sobretudo como corredor logístico do comércio global da droga – e grande parte das rotas que passam por aqui segue para a Europa, enquanto o abastecimento dos EUA permanece historicamente ligado às cadeias que passam pelo México. Na verdade, a maior conexão entre os narcotraficantes brasileiros e os EUA está no fato de que a América é uma grande fornecedora de armas para as “orcrim” brasileiras, que adoram fuzis AR-15 e pistolas Glock. Mas isso não importa para o Departamento de Estado.
Não se ignora que a reclassificação proposta por Trump – e hora em análise pelo Congresso Americano – poderia ampliar fontes de financiamento norte-americano para o combate ao crime organizado, bem como fomentar novas ações de inteligência, treinamentos e operações conjuntas nas fronteiras. Todavia, esses ganhos não compensam os riscos que se apresentam ao Brasil.
Em primeiro lugar, não há organizações terroristas no Brasil. O tráfico de drogas, como as milícias e o jogo do bicho, são organizações criminosas que fazem uso da violência para controlar territórios e mercados ilegais, mas não possuem objetivos políticos ou desfraldam bandeiras ideológicas. Em outras palavras, o CV e o PCC não são a Al-Qaeda.
Em seguida, é importante destacar que a reclassificação das “orcrim” nacionais como FTO permitiria aos EUA impor sanções unilaterais e imediatas contra quaisquer pessoas físicas ou jurídicas que tivessem (ainda que supostamente) envolvimento (direto ou indireto) com essas organizações. Isso significa que depósitos bancários, investimentos e outros ativos de brasileiros poderiam ser bloqueados e sequestrados, ao mesmo tempo em que empresas como JBS, Banco do Brasil, Petrobrás, Embraer, que atuam no mercado americano, poderiam ser sancionadas, sem grandes chances de recurso. Trocando em miúdos, a reclassificação pode impor restrições de viagens, congelar ativos, aumentar custos logísticos, reduzir investimentos estrangeiros e estimular uma escalada militar na América do Sul, região totalmente desnuclearizada e cujas relações entre os vizinhos é tradicionalmente pacífica.
Assim sendo, quais seriam reais as motivações dos EUA? O pano de fundo é a disputa geopolítica com a China. A presença econômica, comercial e financeira chinesa na América do Sul é gritante, como apontam a construção do porto de Chancay, no Peru, e do corredor ferroviário bioceânico, que, pelo Brasil, ligará o Atlântico ao Pacífico. Incapaz de confrontar essa presença pelo viés econômico, uma vez que o livre-comércio e a cooperação para o desenvolvimento jamais passaram de falácias, o governo Trump busca fazê-lo pelo endurecimento das políticas imperialistas, sufocando as ações de reinserção internacional dos países da região.
No caso brasileiro, a presença pivotal nos BRICS é uma pedra no sapato de Washington. Além disso, nossas dimensões continentais, nossa megadiversidade, nossas riquezas naturais e nosso amplo mercado consumidor são “ativos” que Trump não quer deixar para o dragão chinês. Igualmente, a alta qualidade de nossa diplomacia, capaz de dialogar com os mais diversos países do mundo, também incomoda uma América parasitária, que deseja (re)conquistar aliados e espaços de poder, ainda que pelo medo ou pela força.
A primeira linha de ação contra o Brasil foi o “tarifaço”, do qual o país se desvencilhou com notória habilidade. A segunda está posta agora: a reclassificação das “orcrim”, combinada com a proposta de que o Brasil receba estrangeiros capturados em solo americano, tal como ocorre em El Salvador. O que os EUA realmente pretendem é constranger o país, limitar nossa autonomia e tolher nossa política externa, que, dentro ou fora da coalizão BRICS, confronta o imperialismo americano pela exortação ao multilateralismo e à governança global. Sem recursos militares, é pela diplomacia e pelo direito internacional que o Brasil fomenta uma nova ordem internacional, mais inclusiva e democrática, na qual os países do Sul Global possam compartilhar das responsabilidades e das benesses do poder.
Nada disso interessa à América. Para alcançar seus objetivos, os EUA promovem uma guerra híbrida, militarizando a pauta político-diplomática e isolando o Brasil. Travestido de combate ao terrorismo, o imperialismo se agiganta. Não há dúvidas de que, para Washinton, a meta é a eleição futura de um presidente títere, que, alinhado aos interesses da Casa Branca, novamente bata continência para a bandeira americana em detrimento do pavilhão pátrio e dos legítimos interesses nacionais.