Você já deve ter ouvido falar do “azulzinho”, do “genérico da alegria” ou da “tadala” como o novo must-have da noite. O que antes era um remédio para homens mais velhos com disfunção erétil (DE) virou artigo de luxo (ou de sobrevivência) na carteira de muitos jovens. Só em 2023, foram mais de 43 milhões de unidades de tadalafila vendidas no país .
Mas aqui vai a pergunta que não quer calar: por que um garoto de 23 anos, teoricamente no auge da sua potência, precisa de um químico para ter uma ereção?
A resposta raramente está no físico. Estudos mostram que cerca de 70% dos casos de disfunção erétil em jovens têm origem psicológica . Estamos falando da temida ansiedade de performance. Em tempos de pornografia instantânea e cobrança por um corpo e desempenho “impecáveis”, o menino fica tão preocupado em “brochar” que… brocha. É um ciclo vicioso: o medo de falhar gera ansiedade, que libera adrenalina, que contrai os vasos sanguíneos justamente no lugar onde o sangue precisa fluir .
A “bala” da ansiedade
O problema é que muitos jovens, em vez de tratar a causa (a ansiedade), partiram para o atalho químico. Uma pesquisa com estudantes de medicina – futuro profissionais de saúde, atenção! – revelou que 17,1% já usaram esses medicamentos, sendo que 13,3% deles não tinham qualquer diagnóstico de disfunção erétil. O motivo principal? A busca por uma “performance sexual ideal” .
É o que vemos em relatos de baladas em São Paulo: “Todo mundo já toma. Nunca sabe quando vai precisar, sempre tem que andar prevenido”, disse um jovem de 23 anos ao Profissão Repórter . O remédio virou uma espécie de “pré-treino” sexual, e pasme, até para treinos físicos de verdade ele tem sido usado de forma errada, como dilatador muscular, o que é uma prática arriscada e antiética por parte de quem prescreve .
E não faz mal?
Faz, e muito. Primeiro, vamos ao básico: quem não precisa, não sente efeito. O urologista Cláudio Murta explica que a medicação só funciona para quem tem o problema. Em quem é saudável, o ganho é zero, mas os efeitos colaterais são reais: dor de cabeça, rubor facial (aquele rosto vermelho), nariz entupido, náuseas e dor muscular .
O perigo maior, no entanto, é o psicológico. O uso recreativo cria uma dependência perigosa. O jovem começa a achar que só vai conseguir transar se estiver medicado. É a tal da dependência psicológica. Ele até pode ter uma ereção sozinho, mas a insegurança é tanta que ele não tenta, criando uma muleta química para a autoestima .
Há ainda os riscos graves para quem tem problema cardíaco e desconhece. A pílula da felicidade pode, sim, virar uma tragédia se usada sem acompanhamento .
Como sair dessa?
Se você se identificou, a primeira coisa é: sem vergonha de sentir vergonha. Sentir medo de brochar é mais comum do que você imagina. Mas a solução não está no comprimido emprestado do amigo.
A disfunção erétil em jovens é tratável e, na maioria das vezes, não exige Viagra ou Cialis. Ela exige conversa. Pode exigir terapia, mudança de hábitos (álcool e tabaco são inimigos da ereção), exercícios físicos e, claro, uma visita ao urologista para entender se está tudo bem com seus hormônios e circulação .
Usar remédio sem precisar é como usar óculos sem ter miopia: não vai te fazer enxergar melhor, só vai te dar dor de cabeça. E, no sexo, a melhor performance sempre será aquela em que você está inteiro, presente e confiante – sem precisar de um comprimido para isso.
Cuide da sua mente, que o corpo (e as ereções) agradecem.