Vamos combinar: se você respira, já ouviu alguém soltar a famosa frase “os jovens de hoje não querem mais saber de sexo”. Parece que virou senso comum, né? Mas, como tudo que é senso comum, merece uma boa olhada com carinho, sem julgamento e, claro, com a leveza que a gente preza aqui na coluna.
A verdade é que os números parecem dar razão a essa percepção. Um estudo recente do Instituto Kinsey mostrou que cerca de 37% dos jovens se identificam como celibatários. Sim, o número é alto e acende um alerta. Mas reduzir isso a “falta de interesse” é ignorar o iceberg de questões que estão por baixo dessa estatística.
O que os especialistas apontam é que, na real, essa é uma recessão sexual silenciosa, com razões muito mais complexas do que uma simples escolha. É uma geração que está ansiosa, insegura e com dificuldade de se conectar no mundo real.
Pensa comigo: a gente cresceu numa época em que as redes sociais criaram um cardápio de expectativas irreais sobre corpo, desempenho e o que é “normal” no sexo. Isso gera uma pressão danada. Uma pesquisa qualitativa com jovens adultos mostrou que 68,2% mencionam ter uma percepção negativa da própria imagem corporal, e 66,8% apontam o uso frequente das redes sociais como um fator que atrapalha o interesse sexual. Como é que se sente vontade se a gente tá sempre se comparando com um filtro que nem existe?
E não para por aí. A neurocientista Debra Soh levanta um ponto importantíssimo: o impacto do #MeToo na dinâmica entre os sexos. Se, por um lado, o movimento foi fundamental para expor e coibir abusos, por outro, criou um cenário onde muitos jovens homens ficam receosos de abordar mulheres, com medo de serem mal interpretados ou rotulados. A culpa e o medo de errar não são exatamente um cenário convidativo para a intimidade, né?
E tem a cereja do bolo do caos: a falta de uma educação sexual de verdade. Sem informação de qualidade, o que sobra é o que a pornografia ensina. E convenhamos, aquilo é um manual de como não se conectar com outra pessoa. Muitos jovens chegam à vida adulta sem conhecer o próprio corpo e sem saber conversar sobre consentimento. Resultado: o sexo vira uma fonte de ansiedade, não de prazer.
Então, não, os jovens de hoje não são uma geração de freiras e monges. Eles são uma geração que está navegando em um mar de ansiedade, pressão estética, medo da vulnerabilidade e falta de informação. E, no meio desse turbilhão, o sexo acaba ficando em segundo plano.
Aqui no Sem Vergonha, a gente acredita que prazer e conexão são direitos de todos. Mas, pra isso, a gente precisa criar um espaço seguro pra conversar sobre o que realmente importa: nossos desejos, nossos medos, e aprender a se relacionar com o outro, de verdade, sem os filtros da vida digital.
