quinta-feira, 30 de abril de 2026
Saúde mental e liderança entram na agenda estratégica das empresas e pressionam mudanças na gestão de pessoas
29/04/2026

Exigências legais e mudanças no perfil dos profissionais pressionam organizações a estruturar cultura, liderança e gestão emocional de forma integrada

A saúde mental passou a ocupar posição central nas estratégias empresariais no Brasil. Pesquisa da Deloitte aponta que mais de 70% da Geração Z priorizam o bem-estar psicológico, enquanto levantamento do LinkedIn com a PwC indica alta rotatividade voluntária no país, com cerca de 56% dos desligamentos por iniciativa dos profissionais. Empresas sem cultura estruturada e liderança emocional enfrentam perdas e dificuldade de retenção.

Jéssica Palin Martins, advogada e psicóloga, especialista em saúde emocional corporativa e fundadora da IntegraMente, afirma que o tema ganhou caráter estratégico e jurídico ao mesmo tempo. “A inclusão dos riscos psicossociais na NR-1 e a criação do Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental mudam o papel da gestão de pessoas. Não se trata mais de uma iniciativa opcional, mas de uma responsabilidade organizacional que precisa ser mensurada e acompanhada”, explica .

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1, por meio da Portaria nº 1.419/2024, passou a exigir que empresas incluam fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, ao lado de agentes físicos, químicos e ergonômicos. 

Paralelamente, a Lei nº 14.831/2024 instituiu o Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental, criando critérios formais para reconhecimento de boas práticas. A combinação dessas medidas amplia a pressão por adequação e coloca a cultura organizacional no centro da estratégia de negócios.

Na prática, isso significa que lideranças precisam desenvolver novas competências. Segundo a especialista, empresas que conseguem estruturar esse processo colhem resultados diretos em engajamento e performance. “Quando o gestor entende o funcionamento emocional da equipe, ele reduz conflitos, melhora a comunicação e toma decisões mais assertivas. Isso impacta produtividade, clima e retenção de talentos”, afirma.

Além do impacto humano, há efeitos financeiros relevantes. Estudo da Gallup indica que o custo da rotatividade pode chegar a até 200% do salário anual de um colaborador, enquanto profissionais emocionalmente engajados são significativamente menos propensos a buscar novas oportunidades. A saúde mental deixa de ser apenas um benefício e passa a ser uma alavanca de resultado.

Apesar do avanço, muitas empresas ainda enfrentam dificuldades para sair do discurso e estruturar ações concretas. A principal falha, segundo Palin, está na ausência de diagnóstico. “Não é possível gerir o que não é medido. Muitas organizações falam sobre bem-estar, mas não possuem dados para entender o que realmente está acontecendo com as equipes”, diz.

Esse cenário tem impulsionado o uso de ferramentas de diagnóstico emocional, que permitem mapear comportamentos, identificar riscos e orientar planos de ação personalizados. A abordagem integra cultura organizacional, desenvolvimento de lideranças e acompanhamento contínuo, criando uma base mais consistente para decisões estratégicas.

O especialista aponta cinco estratégias para estruturar saúde mental, cultura e liderança nas empresas

A adoção de práticas estruturadas exige método e continuidade. Antes de implementar qualquer ação, é necessário compreender o estágio da empresa e os principais pontos de risco. A seguir, cinco estratégias apontadas pela especialista para iniciar esse processo de forma segura e eficaz:

  • Começar pelo diagnóstico emocional da equipe
    Mapear o perfil comportamental e os fatores de risco permite identificar pontos críticos antes que se tornem problemas estruturais. Sem essa etapa, as ações tendem a ser genéricas e pouco efetivas.
  • Integrar saúde mental à cultura organizacional
    O cuidado emocional precisa estar incorporado aos valores e práticas da empresa, e não restrito a iniciativas isoladas. Isso garante consistência e fortalece o engajamento interno.
  • Desenvolver lideranças preparadas para lidar com pessoas
    Gestores devem ser capacitados para interpretar comportamentos, conduzir conversas difíceis e oferecer feedbacks construtivos. A liderança é o principal canal de impacto na experiência do colaborador.
  • Estruturar planos de ação com base em dados
    A partir do diagnóstico, é fundamental definir estratégias personalizadas por equipe ou colaborador, com metas claras e acompanhamento contínuo.
  • Contar com apoio técnico especializado
    A implementação exige conhecimento psicológico e organizacional. Consultorias e plataformas especializadas ajudam a reduzir erros, acelerar resultados e garantir conformidade com as exigências legais.

Para Palin, o maior erro das empresas ainda é tratar o tema de forma superficial. “Não basta oferecer benefícios ou campanhas pontuais. O que gera resultado é a combinação entre diagnóstico, plano de ação e liderança preparada para executar”, afirma.

A tendência é que a pressão por resultados e conformidade aumente nos próximos meses, especialmente com a regulamentação do certificado federal. Empresas que se anteciparem devem ganhar vantagem competitiva tanto na atração quanto na retenção de talentos. “A saúde mental deixou de ser um tema de RH e passou a ser um tema de negócio. Quem entende isso primeiro, sai na frente”, conclui.

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