quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Raspando o mofo
14/01/2026

“Você vai para o lançamento do livro de nossa confreira Lucia Guerra?” –, perguntou Waldir Porfírio.

Waldir e Lucia são historiadores atentos aos fatos da História recente do País, sempre elaborando a agenda do tempo para nunca esquecermos de episódios marcantes da vida política da Nação, principalmente a partir do golpe de 31 de março de 1964.

Tempo depois do 31 de março, acontecimentos marcaram a vida de milhares de jovens. Muitos, um tanto sonhadores, deram voz às ruas, seguiram lideranças políticas e religiosas atentos às causas sociais, talvez mais conscientes do que os “caras-pintadas” que fizeram estremecer as bases do poder em Brasília no início dos anos de 1990.

O lançamento do livro de minha amiga ocorreu em uma noite engalanada por luzes celestes, com brilho pelos quatros cantos da Fundação Casa de José Américo. A brisa suave do mar de Tambaú refrescava a todos durante os cumprimentos, abraços e recordações de um tempo adormecido na memória. 

Se o lançamento do livro “Memória e Verdade sobre a Ditadura” de Lucia Guerra, narrando fatos que precisam estar vivos na memória para não voltar a acontecer foi ato inesquecível, o reencontro com o jornalista Carmélio Reynaldo tornou-se nostálgico porque trouxe lembranças do período de nossa convivência na redação do antigo O Norte. 

Os encontros com Carmélio sempre são revestidos de recordações, e lembramos de projetos culturais para as nossas cidades. Ele aponta para Luzia, terra sertaneja povoada de tradições e eu, como sempre, observo os caminhos de retorno para Serraria, lugar abençoado do Brejo, aspergido pela brisa fresca do entardecer.

Quando engatinhava pelas redações, copiando telegramas enviados pelas agências de notícias, e produzindo os primeiros textos para jornais, ele estava perto. Recorria a sua proximidade para recolher o melhor e desfrutar das amizades de agentes das artes e da cultura, que sempre estavam por perto. 

Corria o ano de 1976 quando cheguei na redação de O Norte. No ano seguinte Carmélio passou a inserir notas que redigia na coluna Agenda, que guardo com carinho. 

Ele editava a página de cultura no Jornal e, ao final de semana, tinha uma coluna denominada de Agenda. Nesse espaço publicava notas escritas por colaboradores, inclusive os novatos, como eu. 

Numa dessas notas, comentei as chargistas de Flávio Tavares, já revelado como um artista plástico de destaque nacional. Todos os dias, na boca da noite, Flávio entrava de supetão na redação do Jornal, sempre com a charge pronta ou, às vezes, pedia indicação do assunto, que imediatamente, ali mesmo na redação, transformava em traços marcantes com crítica ao sistema de governo, publicado no cantinho da quarta página do jornal. 

Minha amizade com Carmélio vem desta época, uma amizade que não sufoca, mas colhe gestos de gratidão. Ele observava com atenção os escritos enjambrados do iniciante, cortava palavras tortas sem perder a essência do pensamento. Substituía algum termo para maior clareza ao que estava sendo exposto. Em seguida, explicava a troca das palavras. Um aprendizado para o jovem que ainda vagava pelas bibliotecas e sonhava ser escritor, mas que terminou jornalista e poeta nas horas de silêncio. 

Trouxe-me contentamento ao saber que Angélica era sua aluna no Curso de Comunicação. Os meus passos de antes se juntaram ao novo, na pessoa de minha filha. A redação da máquina de datilografia sendo substituída pelos ágeis sistemas de comunicação, numa fusão de mídias no uso das redes digitais, levando o leitor a interagir mais rápido, em tempo integral. Em nosso tempo, esperava-se o jornal chegar pela manhã em às casas para essa interação com a sociedade. 

Não sei se a redação de agora é mais envolvente. Sou da redação romântica, do barulho das máquinas de datilografia e dos aparelhos recebendo os telegramas de notícias, a radiofoto chegando dos quatro cantos do mundo, o que dava uma sensação de romantismo. A notícia era apurada com esmero, os redatores buscavam o melhor texto, em estilo literário.

O reencontro com Lucia Guerra e Carmélio Reynaldo me trouxe boas lembranças.

O livro “Memória e Verdade sobre a Ditadura” deixa a sensação de que algo de bom ficou como registro da História, mesmo que sejam as narrativas sobre o período escuro da ditadura

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José Nunes
José Nunes

José Nunes é jornalista e membro da Academia Paraibana de Letras (APL).