quarta-feira, 29 de julho de 2026
Racism0 no futebol: quando a “tolerância zero” só aparece depois do vexame
21/02/2026

A FIFA adora esse vocabulário de manual corporativo: “tolerância zero”, “política reforçada”, “sanções exemplares”. No papel, parece o último bastião da civilização contra o racismo. Na prática, a sensação é de que o problema só vira prioridade quando dá dor de cabeça jurídica, risco de patrocínio e ameaça de crise institucional. O racismo no futebol não é novidade, não brotou agora por geração espontânea – ele é antigo, recorrente e conhecido por todo mundo que frequenta estádio. Mas, curiosamente, só vira “intolerável” quando a conta chega em forma de multa milionária e possibilidade de exclusão em competição internacional.

O caso da agressão sofrida por Vinícius Jr, envolvendo Gianluca Prestianni, do Benfica, coloca em teste a promessa da FIFA de tolerância zero ao racismo. Desta vez, a entidade deixou claro que as punições não se limitam ao jogador acusado do ato discriminatório: o clube também entra no alvo e pode sofrer sanções esportivas e institucionais, caso fique caracterizada falha na prevenção, na conduta ou na resposta ao episódio.

Para o jogador, o pacote de punições previsto é pesado. A Comissão Disciplinar da FIFA trabalha com suspensão mínima de dez partidas, multa pessoal que pode variar de 500 mil a 1 milhão de euros e a obrigatoriedade de participação em programas de educação antidiscriminatória. Em caso de agravantes — como reincidência, intenção clara de ofender, falta de arrependimento ou comportamento desafiador após o episódio — a suspensão pode ser ampliada para um período bem superior a 12 jogos, com impacto direto na carreira e na exposição do atleta.

Já para o Benfica, as consequências podem ir além do constrangimento institucional. O clube corre o risco de sofrer multas elevadas, sanções esportivas e até penalidades que afetam sua participação em competições, caso fique comprovado que houve omissão, tolerância interna ou tentativa de minimizar o ocorrido. Em cenários mais graves, a FIFA pode impor perda de mando de campo, jogos com portões fechados e outras medidas que atingem diretamente o caixa e o desempenho esportivo do clube.

O recado que a entidade tenta dar é que o combate ao racismo não será mais tratado como problema individual de um jogador “que se excedeu”, mas como uma responsabilidade compartilhada. Se o clube não cria ambiente, regras e punições internas claras, passa a ser corresponsável. E, nesse modelo, o prejuízo deixa de ser apenas moral: vira esportivo, financeiro e de imagem.

Agora, resta saber se a FIFA vai sustentar esse discurso quando a decisão final for anunciada. Se cumprir o que promete, o episódio entra para a lista dos raros momentos em que o sistema resolveu punir de verdade. Se aliviar, o futebol seguirá repetindo a velha encenação de indignação que dura até a próxima rodada.

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