sábado, 28 de março de 2026
PS: A “rubayat” de Petrônio Souto
28/03/2026

Há livros que se leem como quem atravessa um campo; outros, como quem percorre uma cidade. Este pertence ao segundo tipo — não pela organização, mas pela intenção. São quadras, sim. Mas não são apenas quadras: são lotes.

O autor parece querer erguer uma urbe. Não qualquer uma — uma cidade íntima, feita de memória, de bairros afetivos, de esquinas que só existem para quem já passou por elas com o coração aberto. O problema — e o charme — é que esse urbanista escreve com duas mãos: uma segura o compasso do poeta; a outra, a régua do jornalista. E aí começa o conflito.

O poeta — esse sujeito mais tímido, quase escondido — tenta plantar árvores, abrir janelas, deixar o vento circular entre as quadras. Mas o jornalista, com sua vocação de repórter, insiste em numerar ruas, colocar placas, explicar o que deveria apenas ser vivido.

O resultado é uma cidade curiosa: bem loteada, mas nem sempre habitada. Há momentos em que ele acerta em cheio o bairro — e então tudo respira. A memória dos pais, a família, a infância, os amigos, a paisagem de João Pessoa, o mar, o Rógers — aí a cidade ganha carne, ganha sombra, ganha silêncio. Nessas quadras, há poesia de verdade, daquelas que não pedem licença para entrar.

Mas o urbanista, saudoso — e aqui está o ponto fino — parece preferir o bairro ideal ao bairro histórico, expulso que foi, pelas circunstâncias, do real. Em vez de restaurar as ruínas, às vezes ele tenta corrigi-las. E poesia não gosta de correção urbanística: gosta de rachadura, de calçada torta, de casa que cede um pouco com o tempo.

Há também um dado curioso — quase biográfico, quase irônico — que atravessa o livro como uma rua lateral: vindo de família de tabeliães, tendo passado por cartório e sendo um amanuense de nível especial, o autor deveria ser, por natureza, homem de registro, de firma reconhecida, de papel carimbado, dos pareceres.

Mas não. Neste livro, ele comete uma pequena rebeldia silenciosa: ergue uma cidade inteira sem pedir alvará. E isso é, talvez, o melhor do livro.

Porque, se há fiscais — e sempre há — eles aparecerão: os tabeliães da métrica, os urbanistas da forma, os engenheiros da tradição poética, os coronéis da estética e suas milícias do elogio recíproco. Dirão que falta planta, que sobra irregularidade, que a cidade não obedece ao código, que as ruas estão assim — ou assado.

E terão razão. Mas também errarão. Porque, entre uma quadra e outra — justamente nas entrequadras, nos vazios, nos silêncios — há um poeta. E não um poeta qualquer: há um poeta excelente, especialmente quando se esquece de legislar sobre o próprio verso.

O livro, no fim das contas, é isso: uma cidade ainda em construção, com bairros belíssimos e outros ainda por demolir. E talvez nem precise da licença. Porque as cidades mais vivas — como as melhores poesias — são sempre as que crescem um pouco à revelia da lei, esquecendo ordens e currais.

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