As flores povoavam o sítio de minha infância porque Tapuio tinha muitas flores pelos campos. Flores como adereços que embelezavam a vida, porque o espírito é alimentado pelas flores e pela brisa noturna.
No meu tempo de criança e adolescente, sem que déssemos conta, no tempo das floradas, a poesia estava nos arredores do sítio. Poesia também era declamada no embalo do colo de nossa mãe.
Tarde descobri a poesia que encantava e embelezava os dias, apesar das dificuldades para a sobrevivência. Não a poesia dos livros, mais a poesia da natureza que nos acompanhava, tão importante quanto o ar, a água e a ração diária para alimentar o corpo.
Tarde percebi que a poesia alimenta a alma. Traz a paz que se completa na varanda de onde contemplamos o mundo.
Para recompor o tempo perdido sem a leitura e meditação da poesia, sem as flores que ficaram na minha infância em Serraria, no entardecer da vida recorro aos poetas para aliviar o cansaço causado pela ausência do poema de ninar.
É tempo de recordar. Tempo de fazer chegar aos meus netos à suavidade das flores que a arte da poesia carrega consigo. Tento inculcar neles a poesia com a pureza das flores.
Tenho em mãos o livro “O Tesouro da Fé” reunindo versos para crianças, um trabalho gráfico ricamente organizado por Hugo Langone e ilustração de Walter Lara que a professora Neide Medeiros presenteou meus netos. Livro com poemas de cunho religioso e místico que permite a louvação de um tema rico em ensinamentos.
São vinte e um poemas de autores de épocas diferentes, com pensamentos variados, mas ricos ensinamentos, e sobretudo, junto às crianças.
A obra tem muitos poetas de épocas diferentes, e gostaria de citar
alguns como Olavo Bilac presente com o poema “Natal do Menino Jesus”, o português Fernando Pessoa canta o Santo Antônio de Lisboa e Machado de Assis aparece com seu “Soneto de Natal’.
O poeta romântico Gregório de Barros está presente com a narrativa “Buscando a Cristo” e Gonçalves Magalhães com “Preces da Infância”. Mário de Sá-Carneiro tem publicado o poema “Noite de Natal” e o português José Régio faz uma louvação a Nossa Senhora.
Os poemas deste livro trazem uma aura do cristianismo sobre a criança que fui, porque são como as flores perfumosas existentes nos campos onde fui gerado.
Lendo agora estes poemas versáteis, quase todos conhecidos, percebe-se que os organizadores respeitaram a capacidade de compreensão das crianças, com uma mensagem apropriada à fase da vida dos pequenos.
O livro tem a missão de desbravar na criança o gosto pela poesia. De forma sutil as ilustrações ajudam nesse desbravamento. Possibilitam aguçar a sensibilidade infantil, a criar o mundo que sua imaginação permite visualizar.
Contendo a linguagem dos sonhos que alimenta o coração, onde criam raízes, a poesia é um bom alimento para os adultos, ainda mais é indispensável às crianças. Sem perceber na maturidade esse sentimento aflora.
“O Tesouro da Fé” é um livro para leitura em conjunto com as crianças.
Os avôs são convidados a colocar estas flores perfumadas nas mãos e na mente das crianças. Se na infância as estórias de Trancoso, de bichos assombrosos que a noite ficavam nos telhados, de reis e rainhos de um mundo da fantasia fizeram meu mundo encantado, tarde a poesia como estas deste livro chegaram às minhas mãos.
Mesmo tarde, encantaram-me e revelaram sonhos que na infância não me foi permitido vivenciar.
Termino com esses versos de Gil Vicente – Vilancete – que trazem deslumbramento à alma:
“Adorai, montanhas,
o Deus das alturas,
também das verduras.
Adorai, desertos
e serras floridas,
o Deus das vidas.
Ribeiras crescidas
louvai nas alturas
o Deus das criaturas”.