Voltou ele — o mítico pastor da calcinha — a rondar a noite quente de Goiânia com seu faro investigativo e seu figurino irreverente, movendo-se entre becos, viadutos e almas desabrigadas como quem carrega nas mãos um misto de bênção, curiosidade e espetáculo.
A imprensa não dorme quando ele acorda. Bastou aparecer consolando moradores de rua para a cena virar notícia. E ele, com aquela voz de conselheiro de programa policial, prometeu uma revolução social do tamanho de sua ousadia: “Vamos lutar para que vocês tenham pelo menos uma cama de pau duro, na falta de colchão de mola.” A frase caiu como chuva fina sobre a dignidade ferida de quem dorme no concreto — um misto de promessa e deboche involuntário, dessas que só ele sabe entregar.
Goiânia, que já viu de tudo nas suas madrugadas, agora incorpora mais um capítulo para o folclore urbano: o pastor que troca o púlpito pela calçada e a liturgia pela performance. Enquanto os abrigos permanecem lotados e as políticas públicas caminham em passo de tartaruga, sobra para o inusitado a tarefa de lembrar que a miséria não tem horário comercial.
E assim segue o pastor da calcinha, dividindo a noite com sirenes, sombras e histórias que ninguém quer ver — exceto ele, que insiste em transformar cada esquina num sermão improvisado, ora tocante, ora tragicômico, sempre viral. Porque nesta Goiânia de milagres escassos, até o absurdo tem vocação para virar profecia.
