quarta-feira, 25 de março de 2026
Palácio das almas
25/03/2026

Estão passando o pincel na Associação Comercial. Seria o reflexo do surto comercial que a cidade experimenta agora com a crise dos outros setores?

Todo mundo virou comerciante. A professorinha do Estado, para sobreviver; a professorona federal, para salvar o dinheiro da inflação. Ruas residenciais, que faziam o bucolismo da Filipéia, tornaram-se pontos novos de venda, de armarinho a farmácia, de bijuteria a casa funerária.

Isso resultaria, fatalmente, num pincel novo na agremiação de Custódio Domingo dos Santos, um benemérito do começo do século que a cidade juntou com Casimiro de Abreu em duas ruazinhas do Jardim Luna.

Mas a Associação Comercial tem lá a sua história. Nasce numa fase em que tudo que era chic corria para a Maciel Pinheiro. Lá se concentravam, do fim do Império para o começo da República, o melhor café, o mais agitado papo político, a melhor seda e os melhores vinhos importados.

Todas as outras ruas, mesmo a Direita e a Nova, viviam alertadas para as notícias e avisos da Maciel, sempre auspiciosa a cada navio ou vapor que ancorava no rio-porto, o sítio onde circulavam as riquezas importadas e exportadas.

Na alfândega velha, na guarda-moria, nos frontais e grades de ferro que ainda resistem ao tempo, há toda uma história comercial e política que resultou num livro do memorialista urbano Wellington Aguiar. Na porta da alfândega, prédio do começo do século, dominando as águas poentes, os leitores dos velhos jornais e almanaques ainda conseguem ouvir o pregão da Bolsa de Londres cotando o nosso açúcar, nosso fumo e algodão. Era o Sanhauá chamando, avisando a todos os sonhos, desejos e interesses que estavam chegando à praça a seda, o calçado, o tapete, os queijos, vinhos e azeites do bom gosto da época.

Era lá, negramente, onde desciam os escravos importados e onde se fazia o seu comércio. Era lá onde os coronéis comerciavam, divertiam-se e hospedavam-se.

Foi de lá o patrocínio e o apoio político para a publicação do jornal mais combativo e atuante de toda a história de nossa imprensa, O Comércio, de Arthur Achilles, um jornal de dez anos de duração, escrito para a História. Ficavam na Maciel, em torno dos cafés e balcões de prestígio, as reuniões e papos diários dos varões do Império e da nascente República. Dos Gama e Melo, Floriano Peixoto (sim, o Floriano presidente, que serviu um ano e fez amizades na Paraíba). Dos Orris Soares, Coriolano, Carlos Dias, Américo Falcão, sem falar em Augusto dos Anjos, que também morou, discretamente, na Maciel.

Foi nesse ambiente que a Associação Comercial construiu o seu palácio, planta e execução de H. Di Láscio, arquiteto que, antes do filho Mário, já havia deixado sua marca no desenho urbano de João Pessoa.

Depois veio a sisudez de tudo aquilo, o prédio vazio de suas almas, que se encantaram.

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Gonzaga Rodrigues
Gonzaga Rodrigues

O maior cronista da história do jornalismo da Paraíba.