“Este povo honra-me com os lábios,
mas o seu coração está longe de mim.”
Mateus 15:8
Domingo de Ramos… o povo com ramos nas mãos e a verdade já escorrendo pelos dedos.
Há um contraste antigo — mais velho que Jesus Cristoentrando em Jerusalém — entre o que o povo sente e o que se publica sobre o que ele deveria sentir. Uma coisa é a voz que brota da rua, do corpo cansado, da fé simples. Outra é a voz organizada, escrita, amplificada — a opinião publicada — que, muitas vezes, não descreve o povo: tenta substituí-lo.
As redes sociais destacaram, com ainda mais virulência, esse fenômeno. Existem a pré-verdade e a pós-verdade. A pré-verdade — ou verdade editorial — é aquela publicada (ou não publicada) sob encomenda, para agradar alguma manifestação de poder. A pós-verdade ocorre quando a publicação depende de uma consolidação artificial para assemelhar-se ao fato que imagina. Em ambos os casos, a verdade sofre de interesses.
Mas a pior de todas as verdades é aquela negada à opinião, sob a forma de censura.
No Domingo de Ramos, essa tensão aparece com uma clareza quase cruel. A multidão grita “Hosana!”. Não era um grito decorativo — era súplica e reconhecimento: salva-nos. Ali havia uma opinião pública real, orgânica, nascida da experiência direta com aquele homem que curava, ensinava e desmontava as hipocrisias.
Mas bastaram poucos dias para que outra narrativa se impusesse. A mesma cidade que aclamou, condenou. E não foi um milagre às avessas — foi o velho mecanismo: a opinião publicada, conduzida por interesses, medos e conveniências, reorganizou o sentido das coisas. O povo não deixou de existir; foi conduzido, induzido, encurralado dentro de um discurso que já vinha pronto.
Entre o “Hosana” e o “Crucifica-o”, há menos distância do que gostaríamos de admitir.
E aqui entra o ponto duro — quase uma pedrada: a salvação, sendo individual, não pode ser terceirizada à opinião publicada. Quem segue apenas o coro, ainda que bonito, corre o risco de mudar de lado sem perceber. A fé que depende da manchete já nasceu fraca.
Há, portanto, duas responsabilidades: a da alma, que não pode delegar a ninguém o juízo sobre o bem e o mal. A salvação não é plebiscito. Não se vota a verdade — reconhece-se; e a da vida pública, que exige vigilância. Porque toda vez que a opinião publicada se distancia demais da realidade vivida, nasce uma farsa. E toda farsa, quando ganha escala, vira injustiça institucionalizada — daquelas que lavam as mãos como Pôncio Pilatos, mas não limpam a culpa.
Domingo de Ramos não é só celebração; é aviso. O povo que carrega ramos hoje pode carregar pedras amanhã — se não souber sustentar, por dentro, aquilo que proclama por fora.
Entre o ramo e a cruz não houve mudança em Deus — houve mudança nos homens.
E é por isso que a salvação não passa pela praça: passa pela consciência.
